16/11/10

UMA MENTE RENOVADA

“No ano em que o rei Uzias morreu, eu vi o Senhor assentado num trono alto e exaltado, e a aba de sua veste enchia o templo. Acima dele estavam serafins; cada um deles tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas cobriam os pés e com duas voavam. E proclamavam uns aos outros: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos, a terra inteira está cheia da sua glória”. Ao som das suas vozes os batentes das portas tremeram, e o templo ficou cheio de fumaça. Então gritei: Ai de mim! Estou perdido! Pois sou um homem de lábios impuros e vivo no meio de um povo de lábios impuros; os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos! Logo um dos serafins voou até mim trazendo uma brasa viva, que havia tirado do altar com uma tenaz. Com ela tocou a minha boca e disse: “Vê, isto tocou os teus lábios; por isso, a tua culpa será removida, e o teu pecado será perdoado”. Então ouvi a voz do Senhor, conclamando: “Quem enviarei? Quem irá por nós?”E eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me!” (Isaías 6:1-8)
Podemos perceber a forma como o Senhor Deus conduziu o chamado de Isaías. O profeta precisava compreender algumas coisas importantes e fundamentais para o cumprimento do seu chamado. A sua mente precisa ser renovada, assim como o Apóstolo Paulo nos diz em Romanos 12:2 – “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. Precisa haver uma renovação da nossa mente para que aí então possamos compreender a boa, perfeita e agradável vontade de Deus para nossa vida. Foi exactamente o que aconteceu com Isaías, diante da visão da glória de Deus e passou a entender perfeitamente algumas coisas sobre Deus e sobre si mesmo. Primeira compreensão: “EU VI O SENHOR ASSENTADO NUM TRONO ALTO E EXALTADO” – Precisamos entender que o Senhor está assentado sobre um alto e sublime trono e Ele é o que tem o controlo de todas as coisas. Deus é soberano, a nossa vida precisa estar nas mãos de Deus. Há uma canção que diz assim:

Abro mão dos meus sonhos
Abro mão dos meus planos
Abro mão da minha vida por Ti
Abro mão dos prazeres e das minhas vontades
Abro mão das riquezas por Ti
Estou apaixonado...

Eu penso que precisamos ter muita coragem para viver esta música, pois ela fala de uma rendição total a vontade d´Aquele que é o Soberano e que se assenta num alto e sublime trono. Segunda compreensão: E PROCLAMAVAM UNS AOS OUTROS: “SANTO, SANTO, SANTO É O SENHOR DOS EXÉRCITOS, A TERRA INTEIRA ESTÁ CHEIA DA SUA GLÓRIA”. Assim como o nosso Deus é santo, importa que sejamos santos. O Apóstolo Pedro nos ensina isto: “Sejam santos, porque eu sou santo”. A santidade precisa fazer parte de minha vida. Muitas vezes declaramos ser difícil viver em santidade, porém, nem mesmo começamos a caminhar, julgando ser impossível. Isaías compreendeu que Deus era Santo, Santo e Santo. Terceira compreensão: “ENTÃO GRITEI: AI DE MIM! ESTOU PERDIDO! POIS SOU UM HOMEM DE LÁBIOS IMPUROS E VIVO NO MEIO DE UM POVO DE LÁBIOS IMPUROS”. Isaías compreendeu que precisava de Deus. Reconheceu sua falha, foi sincero diante de Deus. Todos nós precisamos reconhecer a nossa dependência de Deus. O fato de reconhecer não significa o fim. Isaías pensava que após reconhecer sua falha Deus iria destruí-lo, porém, foi exactamente ao contrário. Deus não descarta ninguém. Hoje vivemos a geração do descartável. Tudo a gente usa e joga fora. Deus não olha desta forma. Quando ele encontra em nós sinceridade, rendição, quebrantamento Ele está disposto a mobilizar os céus, fazendo com que o anjo traga uma brasa viva do altar para tocar a nossa vida. Que possamos expor a nossa vida diante de Deus para que Ele possa trazer CURA. É tempo de sarar as nascentes das águas. Deus quer a sua igreja fluindo águas limpas, que irão levar vida onde passar. É TEMPO DE SARAR AS FONTES.
“Vede o Filho de Deus curvado em adoração a Seu Pai! Conquanto seja o Filho de Deus, robustece Sua fé por meio da prece, e mediante a comunhão com o Céu traz a Si mesmo força para resistir ao mal e ministrar às necessidades dos homens. Como o Irmão mais velho de nossa raça, conhece as necessidades dos que, cercados de enfermidades e vivendo num mundo de pecado e tentação, desejam contudo servi-Lo. Ele sabe que os mensageiros que acha por bem enviar, são homens fracos e falíveis; mas a todos que se dedicam inteiramente ao Seu serviço, promete auxílio divino. Seu próprio exemplo é uma garantia de que a diligente e perseverante súplica a Deus em fé - fé que leva a uma inteira confiança nEle e consagração sem reserva a Sua obra - será eficaz em trazer aos homens o auxílio do Espírito Santo na batalha contra o pecado.”
Atos dos Apóstolos, p. 56

10/11/10

ORION E OS EVENTOS FINAIS

Nebulosa de Órion (M42).
O sistema solar caberia dentro desse espaço
no mínimo 20 milhões de vezes.
Para fazer um tour de Órion clique
http://hubblesite.org/gallery/tours/tour-orion/
A nebulosa de Órion ocupa um lugar especial no coração Adventista. Desde 1848, quando Ellen White mencionou Órion no livro Primeiros Escritos, os Adventistas têm ansiosamente focado os seus olhos e telescópios para esse lugar no céu em busca de sinais e evidências da Segunda Vinda. A passagem em questão diz:
"Nuvens negras e densas subiam e chocavam-se entre si. A atmosfera abriu-se e recuou; pudemos então olhar através do espaço aberto em Órion, donde vinha a voz de Deus. A santa cidade descerá por aquele espaço aberto."(PE, 41).
Pano de Fundo Histórico
Entre 1846 e 1848, Ellen White teve três visões que mostraram eventos no céu. A primeira ocorreu em Novembro de 1846 em Topsham, Maine, na qual ela descreveu uma viagem pelo Cosmos onde viu planetas com suas luas. Presente ali estava o capitão e astrónomo amador, José Bates. Embora nenhum relato oficial exista sobre aquele episódio, sabemos através do relato de John Loughborough[1] e Ella Robinson[2] (neta de Ellen White) que foi Bates quem descreveu o que Ellen White viu em 1846. Quando ela mencionou um planeta com 4 luas, Bates disse, "Ela está vendo Júpiter!" Quando ela vê um planeta com 7 luas, Bates exclama: "Ela está vendo Saturno!"[3]
Após isso, Ellen White descreve algo que se assemelha aos "céus que se abrem", que haviam interessado Bates há alguns meses (abaixo veremos porque). Segundo ele, a descrição de Ellen White desses "céus que se abrem" era a mais incrível que ele já tinha ouvido, especialmente porque ela lhe havia dito que nunca sequer havia consultado um livro de astronomia e não conhecia nada do assunto. [4] Bates concluiu: "Isso é obra de Deus!"[5] Como resultado, Bates passou a crer no dom profético de Ellen White. A visão tinha um propósito específico: impressionar Bates a tomar uma decisão. Deus tinha um plano para ele pois foi um dos grandes pioneiros que introduziu a verdade do sábado para Ellen e Tiago White.[6]
É importante ressaltar que em Maio do mesmo ano, ou seja, seis meses antes da visão, Bates havia publicado um panfleto intitulado "Os Céus Que Se Abrem"[7] no qual ele analisou a relação entre astronomia e a Bíblia e procurou determinar exactamente onde era estava o "paraíso de Deus e a Nova Jerusalém". O panfleto foi fruto de várias noites observando Órion na casa de um amigo que havia recentemente comprado um telescópio. Bates se baseou em menções de uma "abertura" em Órion descoberta por outros astrónomos tais como Parsons, Huygens and Ferguson. Mais de cem anos antes, Huygens havia descrito Órion como abrindo-se para outra "região mais iluminada."[8] No seu panfleto, Bates equipara o "céu aberto" de João 1:51 à nebulosa de Órion e como o ponto ao leste onde "o mundo logo verá o que o crente no Segundo Advento tem ansiosamente aguardado."[9] Ele finaliza o panfleto dizendo que a "Nova Jerusalém... o Paraíso de Deus ... está agora prestes a descer do "terceiro céu", através da porta aberta ... de Órion."[10] Tudo indica então que, embora Ellen White não tenha citado Órion especificamente na visão dos planetas em Novembro de 1846, Bates concluiu que ela falara dos "céus que se abrem" em Órion, expressão que ele havia usado várias vezes. Mais tarde em sua autobiografia (1864), Bates estava ainda mais seguro da relação entre Órion e o céu quando concluiu que: "Essa abertura no céu é sem dúvida a mesma mencionada nas Escrituras. João 1:51; Apo. 19:11. O centro dessa constelação (Órion) está no centro, entre os polos do céu."[11] Aparentemente, essa certeza pode ter partido do pressuposto de que Ellen White viu Órion em sua visão de 1846, algo que nunca foi confirmado por ela.
A segunda visão ocorreu em dia 3 de Abril de 1847 também em Topsham, Maine e tratou da Segunda Vinda (Veja Primeiros Escritos, p. 32-35). A descrição da visão é bastante similar à que estamos estudando porém, sem mencionar Órion: "Nuvens negras e pesadas se acumularam e se chocavam umas contra as outras. Mas havia um espaço claro de glória indescritível, de onde veio a voz de Deus como de muitas águas, a qual fez estremecer os céus e a Terra."(p. 34).
A terceira visão, cuja descrição contém a menção de Órion, foi recebida em Rocky Hill, Connecticut no dia 16 de Dezembro de 1848. Vamos agora analisar algumas das implicações da menção de Órion por Ellen White ao interpretar essa visão.
Astronomia
Não é difícil imaginar porque os astrónomos do passado se maravilharam com Órion; suas cores e brilho continuam a atrair astrónomos. Junte essa curiosidade com conhecimento de teologia, e não é difícil entender porque Bates concluiu mais do que depressa que Órion era a porta do céu. Durante a segunda parte do século 19, avanços em astronomia começaram a elucidar o que realmente acontece em Órion. Desde 1990, quando o telescópio espacial Hubble (diga-se RRÃ-bôl) entrou em órbita, suas imagens de alta definição revelaram mais nitidamente o que outros já haviam suspeitado: não existe nenhum "espaço aberto" na constelação de Órion. Ela é formada de estrelas, gases e poeira cósmica que aos olhos de astrónomos do passado com seus telescópios limitados, parecia a entrada para um lugar ainda mais luminoso.
Nebulosa de Órion vista em 1741,
desenho de A. Long.[13]
Órion, embora seja uma das constelações mais próximas da Terra, está a 1.500 anos-luz[12] de distância, o que equivale a aproximadamente 14 quatriliões de quilómetros. A luz de Órion que vemos hoje foi gerada 1.500 anos atrás! Em outras palavras, para que víssemos algo se abrindo em Órion hoje, esse evento teria que ter ocorrido há 1.500 anos para que a luz desse evento chegasse a tempo até nós. Nosso sistema solar inteiro poderia caber dentro da extensão da nebulosa de Órion no mínimo 20.000.000 de vezes! A estrela Betelgeuse em Órion, por exemplo, é de 400-1.000 vezes maior do que o Sol.
José Bates, pioneiro Adventista que descreveu Órion como sendo "sem sombra de dúvida" a porta do Céu.

José Bates, pioneiro Adventista que
descreveu Órion como sendo
 "sem sombra de dúvida" a porta do Céu.

Quando consideramos esses fatos, cabe perguntar: Seria possível observar alguma coisa passando através de Órion? Vejamos: a Cidade Santa segundo Apocalipse 21:16 tem o comprimento de 12.000 estádios. Vamos considerar esse número como literal para efeito de ilustração, o que equivale a 2.200 quilómetros. Assim, considerando-se que Órion tem 100 triliões de quilómetros de área, se Jesus com seus anjos ocupassem uma área como a Nova Jerusalém, seria impossível vê-los passando através de Órion, mesmo com os mais potentes telescópios hoje. Seria mais fácil alguém num Boeing 747 a 10 km de altura achar uma agulha no meio na Amazónia a olho nu. Além disso, para que Jesus e seus anjos pudessem fisicamente atravessar Órion e chegar até a Terra, eles teriam que viajar à velocidade de no mínimo 14 quatriliões de km/hr, ou seja, 14 milhões de vezes acima da velocidade da luz!
Não estamos questionando se os anjos podem ou não alcançar tais velocidades, nem tampouco querendo substituir a fé pela ciência. A pergunta na verdade deveria ser, Por quê eles sequer se limitariam a percorrer tal distância?[14]

Eu gostaria de sugerir que a relação entre a Terra e o Céu é em termos de "dimensão" e não em distância, localização ou pontos de acesso. A complexidade dessa odeia é exemplificada por Paulo em 2 Cor. 12:2: "Conheço um homem em Cristo que há catorze anos (se no corpo não sei, se fora do corpo não sei; Deus o sabe) foi arrebatado até o terceiro céu." Paulo não sabia como havia chegado ao Céu, obviamente porque o Céu está em outra dimensão incompreensível para meros mortais. Creio que a experiência de João em Patmos oferece uma explicação sobre como isso ocorre; note que antes de entrar em visão em Apo. 4:1, João vê uma porta se abrir no céu e é chamado por Jesus a entrar por ela. A entrada às sala do trono de Deus se dá pelo Espírito (v. 2), mas a porta ou ponto de acesso entre as duas dimensões aparece antes de ele ser arrebatado.
A conclusão a que chegamos nesse ponto do estudo é que o conhecimento actual de astronomia a priori descarta a inclusão de uma estrutura cósmica extremamente remota no abalo dos poderes do céu por ocasião da vinda de Cristo; segundo a Bíblia, esse abalo deve impactar somente a esfera terrestre (Sol, Lua, estrelas cadentes e a atmosfera Terra).

Revendo a Visão
Vamos retornar brevemente à primeira visão dos planetas em 1846. Neste período do movimento Adventista (década de 1840), Bates e o casal White passaram muito tempo juntos como pioneiros adventistas. Como astrónomo amador, Bates já havia mostrado seu entusiasmo pelo assunto perante seus irmãos mileritas.[15] É muito provável então que Bates tenha compartilhado com Ellen White os seus estudos de astronomia e sua convicção de que Órion era de fato os "céus que se abrem" da Bíblia e da sua visão. Esse detalhe provavelmente explica porque dois anos depois, em 1848 ela interpreta a visão do "espaço aberto" no céu durante a vinda de Cristo como sendo Órion. Digno de nota também é o fato de que Ellen White frequentemente prefere a expressão "opening heavens" segundo José Bates para descrever o que na Bíblia, versão King James, é "heaven open".
Um pouco mais do pano de fundo histórico confirma que após 1844, alguns mileritas ensinavam que o abalo das potestades do céu não se referia ao nosso céu literal, mas simbolizavam as nações da Europa. O editor da revista milerita Day Star desafia: "Por que fitais os olhos ao céu; podeis discernir de onde Jesus está voltando?" Em parte, Bates escreveu seu panfleto sobre o "espaço aberto" em Órion por onde Jesus virá para refutá-los.[16] É interessante que Ellen White se une a Bates contra esse erro confirmando que o que ela viu em visão acontece literalmente na atmosfera terrestre: "Nuvens negras e densas subiam e chocavam-se entre si. A atmosfera abriu-se e recuou." Descrevendo a mesma cena em 1847, ela substitui "atmosfera" por "céus agitados", o que confirma que são os céus terrestres (e não uma suposta atmosfera em Órion).

Portanto, tudo indica que a referência a Órion em 1848 era a interpretação de Ellen White da visão e não a visão em si. Essa é uma distinção crucial para se entender a revelação profética. Geralmente, o profeta recebe uma visão e só às vezes recebe ajuda para interpretá-la, como no caso de João (Apo. 17) e Daniel (Dan. 8). Na maioria dos casos, porém, a interpretação fica por conta do profeta ou dos leitores/ouvintes. Nesse caso, não temos evidência inequívoca de que Deus revelou-lhe de maneira específica e literal que o "espaço aberto" era a nebulosa de Órion, já que ela descreve a mesma cena outras vezes sem mencioná-la, como, por exemplo, na visão da mesma cena de 1847.[18] Além disso, a menção da Cidade Santa na descrição da visão é um parêntese na fala e confirma que Ellen White está em realidade interpretando a visão, haja vista que, enquanto a visão em si trata dos eventos durante a Segunda Vinda de Cristo, a Cidade Santa só descerá após o Milénio (Apo. 21) e não poderia estar descendo durante a vinda de Cristo.

Como vimos acima, Bates foi o primeiro a concluir que Órion era a porta do Céu e que a Cidade Santa desceria por ali. Há portanto, fortes evidências de que isso influenciou Ellen White naquele momento da sua experiência. No entanto, o entendimento da visão aumentou com o tempo, ajudado por outras visões semelhantes, razão pela qual Ellen White citou Órion uma única vez e não o fez posteriormente. Ao descrever a mesma cena no livro Spiritual Gifts, vol. 1, p. 205, publicado em 1858, Ellen White descarta Órion da interpretação e repete termos que usou em 1847 para descrever a vinda de Cristo por um "espaço claro de glória." A mesma terminologia é usada no livro O Grande Conflito (edições de 1888 e 1911), considerado o relato final de Ellen White sobre os eventos finais, onde ela descreve a mesma cena novamente sem a menção de Órion:

Nuvens negras e pesadas sobem e chocam-se umas nas outras. Em meio dos céus agitados, acha-se um espaço claro de glória indescritível, donde vem a voz de Deus como o som de muitas águas, dizendo: "Está feito." Apoc. 16:17. (GC 636).

Ellen White poderia ter incluído Órion na descrição do Grande Conflito mas não o fez, obviamente porque o suposto "espaço aberto" que em 1848 ela entendeu como Órion através de José Bates, agora deu lugar ao "espaço claro de glória indescritível". Note a diferença entre espaço "aberto" e espaço "claro"; parece que ela procura criar uma distinção entre sua interpretação anterior que tinha relação com o "espaço aberto" de Órion.

Torna-se, portanto, evidente que a influência dos estudos de José Bates sobre a relação entre teologia e astronomia oferece a explicação mais plausível para a menção de Órion na interpretação da visão do "espaço aberto" em 1848. Vários estudiosos adventistas têm chegado à mesma conclusão. Kheon Yigu realizou uma pesquisa pela Universidade Sahmyook em que analisou o desenvolvimento da relevância de Órion para os Adventistas e também conclui que a menção posterior do "espaço claro" no Grande Conflito deve substituir Órion.[18] Martin Carey cita o fato de que já em 1864, o astrónomo Huggins focalizou seu telescópio para Órion e descobriu que a suposta "abertura" não passava de gases e poeira cósmica.[19] Os Drs. M. Sprengel e D. Martz, ambos professores de ciências no Pacific Union College analisam numa série de 3 artigos na Revista Adventista[20] (Review and Herald) a citação de Órion e como o entendimento dos astrónomos foi aumentando através dos avanços da ciência. Eles concluem que a comparação do "espaço aberto" com Órion é fruto da influência de José Bates.

A Dinâmica da Revelação
Em um artigo que analisa o entendimento gradual por Ellen White das suas visões, os depositários do White Estate concluem:
A jovem Ellen, aparentemente não entendeu completamente todas as implicações das suas primeiras visões. Ela teve que operar dentro da mentalidade do seu tempo, bem como dentro da capacidade mental de uma adolescente. Dessa forma, assimilar tudo o que compunha suas primeiras visões levaria tempo para a jovem Ellen, assim como levou tempo para seus contemporâneos.[21]
Nas palavras da própria Ellen White:

Com frequência me são dadas representações que a princípio eu não compreendo, mas depois de algum tempo elas se tornam claras pela reiterada apresentação dessas coisas que a princípio eu não entendi, e de certas maneiras que fazem com que o seu significado seja claro e inconfundível. (Carta 329, 1904; ME 3, 56).
Essa progressão do entendimento da revelação faz parte de um princípio articulado por Ellen White ao dizer que Deus revelou-se aos seres humanos levando em conta seu contexto e o momento de sua experiência:
...à medida que Deus, em Sua providência, via apropriada ocasião para impressionar o homem nos vários tempos e diversos lugares ... a fim de chegar aos homens onde eles se encontram... na linguagem dos homens. (ME 1, 19, 20).

Isso significa que Deus leva em consideração a capacidade do profeta de assimilar ou não o que ele está revelando enquanto permite conceitos e pressuposições locais do profeta como elementos periféricos para "emoldurar", por assim dizer, verdades mais profundas. A moldura é um detalhe somente, a verdade revelada é axiomática e absoluta. O teólogo adventista Alden Thompson descreve esse princípio revelador assim: "Os limites de tempo e circunstâncias, cultura e conhecimento humano, estabelecem os marcos dentro dos quais a revelação pode ser eficaz. ... O bom ensino sempre envolve ilustrações eficazes, que são concretas, compreensíveis, adaptadas para as necessidades do estudante. Elas apontam para a verdade mas não devem ser confundidas com a verdade."[22]

Imagem de Órion que se assemelha aos "céus que se abrem" de José Bates.

Como vemos esse princípio na Bíblia? Por exemplo, Moisés classificou o coelho como um animal ruminante (Lev. 11:6), hoje sabemos que ele não é. Isaías disse que a Terra tinha "quatro cantos" (Isa. 11:12).[23] João, além de citar os mesmos quatro cantos (Ap. 7:1), descreve a Nova Jerusalém cercada de um muro e portas, algo que reflete a estrutura da Jerusalém que ele conhecia no primeiro século. Jesus disse que, como sinal da proximidade da Sua Vinda, "as estrelas cairão do céu" (Mar. 13:25); hoje sabemos que não é possível uma estrela cair para a Terra, ele só poderia estar se referindo ao que conhecemos hoje como meteoritos e não a estrelas de verdade.

Como vemos esse princípio na menção de Órion por Ellen White ao interpretar a visão de 1848? Deus mostrou a ela que Júpiter tinha 4 luas (conhecimento corrente da época) enquanto hoje sabemos que Júpiter tem 63 luas! Saturno tinha 7 luas, novamente referindo-se ao conhecimento da época, enquanto hoje sabemos que Saturno tem 60 luas! É claro que Bates não acreditaria nela se ela dissesse que Saturno na verdade tinha 60 luas.[24] No livro Educação, Ellen White diz que as estrelas refletem a luz solar (Ed 14); hoje sabemos que estrelas possuem luz própria. Sendo assim, Ellen White estava convencida de que "espaço aberto" de Órion, que José Bates defendia inclusive pela Bíblia como sendo a porta do céu, era de fato o ponto no céu por onde Cristo passará, de onde vinha voz de Deus e por onde a Cidade Santa vai descer após o Milénio. Essa suposta "abertura" que eles pensavam existir na época era o melhor exemplo de uma entrada para o Céu onde Deus e Seus anjos estão. Esse era o entendimento que ela tivera da visão em seu contexto e em suas limitações na época, haja vista que não temos evidência que Deus revelou-lhe que o espaço aberto era Órion especificamente. Órion era relevante para eles naquele momento; hoje sabemos que essa suposta "abertura" em Órion não existe, ela não se abre para nenhuma região mais iluminada do Cosmos, como se fosse a porta do Céu. Órion é uma nebulosa como qualquer outra, cheia de gases, estrelas e poeira cósmica. Por outro lado, a título de consistência, insistir no "espaço aberto" em Órion implica defender não só que Júpiter só tem 4 luas, mas que a Terra tem quatro cantos e que as estrelas cairão do céu.

Vale a pena também relembrar um outro princípio de interpretação do Espírito de Profecia articulado por Ellen White que trata de levar em conta o "tempo e lugar" dos textos, veja: “Quanto aos testemunhos ... o tempo e o lugar, porém, têm que ser considerados."[25] Sem dúvida o "tempo e lugar" da visão de 1848 justificaram o uso de Órion, algo que foi substituído posteriormente pela expressão genérica "espaço claro" que em nada diminui o sentido da visão já que ele não é o centro da visão, a descrição do retorno de Jesus é.

Finalmente, o uso de fontes e a influência de outros autores nos escritos de Ellen White em questões não essenciais são exemplificados no processo pelo qual passou a primeira edição do Grande Conflito (1888). Na sua segunda edição em 1911, o livro passou por uma revisão para corrigir algumas discrepâncias históricas. Esse processo foi liderado e impulsionado pela própria Ellen White: "Quando me chegou a atenção que o livro o Grande Conflito deveria ser reimpresso, decidi que teríamos que examinar tudo minuciosamente a fim de estabelecer se as verdades ali contidas foram expressas na melhor maneira possível e para convencer aqueles que não são da nossa fé que o Senhor me guiou e susteve ao escrever essas páginas."[26] (O referido artigo do White Estate explica as revisões.)
Fica evidente então o fato já delineado anteriormente que Ellen White não recebeu inspiração verbal. Ela teve visões em estilo de imagens estáticas rápidas[27] e precisou interpretá-las e descrevê-las em sua própria linguagem como as havia entendido naquele momento. Em muitos casos ela também se valeu da linguagem de outros autores da época para expressar os pontos essenciais das visões. Com o passar dos anos, o Espírito Santo a fez entender essa visão (bem como outras visões) de maneira diferente, através de repetidas representações, o que posteriormente ela descreveu no livro Spiritual Gifts em 1858 e no Grande Conflito em 1888 sem citar Órion.

Conclusão
Ellen White interpretou o "espaço aberto" no céu como Órion somente em 1848 porque isso era o melhor que ela (através dos estudos de José Bates) conhecia sobre a relação entre astronomia e a Bíblia. Ao descrever a mesma cena no livro Spiritual Gifts, vol. 1, p. 205 (1858), Ellen White descarta Órion da interpretação e repete termos que usou em 1847 para descrever a vinda de Cristo por um "espaço claro de glória indescritível." A mesma terminologia é usada na primeira edição do Grande Conflito em 1888. Para todos os efeitos, Órion deixou de ter qualquer relevância para os eventos finais na interpretação de Ellen White já em 1858. 
O presente estudo evidencia a necessidade de entendermos a dinâmica da revelação nos escritos de Ellen White e aplicarmos princípios corretos de interpretação do Espírito de Profecia a fim de evitar interpretações extremas que levem ao sensacionalismo. Muitas especulações têm surgido através dos anos sobre o que estaria acontecendo em Órion, desde sons de trombetas, luzes inexplicáveis, sons de cavalos marchando ou até que as Três Marias estão se afastando para dar lugar à vinda de Cristo. Nada disso tem base em fatos concretos.[28] Infelizmente, essa passagem tem sido um prato cheio para alguns em nosso meio que tendem ao sensacionalismo. Sem dúvida o anseio pela vinda de Jesus é louvável. Porém, lembremo-nos que Jesus virá Segunda Vez porque Ele prometeu. Nossa fé não deve depender de cataclismos, de abalos, de nebulosas, de problemas do meio ambiente ou crises políticas e religiosas mas sim da crença firme na promessa de Jesus: "Virei outra vez". No dizer de Pedro: "Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em q¬ue habita a justiça." (2 Ped. 3:13).

André Reis

________________________________________
[1] John Loughborough, The Rise and Progress of Seventh-day Adventists, p. 125-127.
[2] Ella Robinson, Histórias da Minha Avó, pp. 40-42.
[3] Tiago White comentando a visão baseia-se em Bates para dizer que ela viu "Júpiter, Saturno e um outro planeta." A Word to the Little Flock, p. 22.
[4] Veja Vida e Ensinos, p. 88.
[5] John Loughborough, The Rise and Progress of Seventh-day Adventists, p. 125-127.
[6] Veja Francis Nichols, Ellen White and her Cristics, pp. 91-101.

[7] O título todo é longo e diz: "Os Céus Que Se Abrem, ou uma Opinião Relacionada do Testemunhos dos Profetas e Apóstolos a Respeito dos Céus Abertos, Comparada a Observações Astronômicas em Relação à Presente e Futura Localização da Nova Jerusalém, o Paraíso de Deus."
[8] Agnes Clarke, A Popular History of Astronomy During the 19th Century, p. 22.
[9] Joseph Bates, The Opening Heavens, p. 8, 27; disponível em http://sdapillars.org/joseph_bates_p.php.
[10] Idem, p. 28.
[11] Joseph Bates, The Autobiography of Elder Joseph Bates, p. 154
[12] Ano-luz: distância percorrida pela luz durante 1 ano na velocidade de 300.000 kilômetros/segundo = 9,460,800,000,000 de kilômetros.
[13] Thomas Dick, LL. D., New York, Harper & Brothers, 82 Cliff-Street, 1844, pages 204-209.

[14] Duas perguntas adicionais exemplificam os problemas lógicos com a idéia de Órion ser a porta do Céu: (1) Se há necessidade de um ponto físico de acesso entre o a Terra e o Céu através do Cosmos (que, consequentemente estaria limitado por distâncias), não faria mais sentido então que esse ponto estivesse a uma distância mais "acessível" da Terra e não em uma constelação remota, a 1.500 anos luz de distância? (2) Por outro lado, se o Céu depende mesmo do Cosmos em termos de ponto de acesso ou localização, não faria mais sentido que esse corredor de acesso estivesse num ponto que sinalize o fim do universo conhecido e o início do Céu, já que haveria a necessidade de um ponto de "separação" entre os dois? Nesse caso, Órion não qualificaria como ponto extremo do universo, já que o telescópio Hubble foi capaz de captar a luz de galáxias a 13 bilhões de anos-luz de distância. Astrônomos têm proposto a idéia de túneis (wormholes) ou dobras na estrutura do universo que funcionam como uma espécie de atalhos entre um ponto e outro do universo.
[15] John Loughborough, The Rise and Progress of Seventh-day Adventists, p. 125-127.

[16] Veja Bates, "Opening Heavens", 11. Day Star citado por Bates sem referência.
[17] Veja Primeiros Escritos, p. 34.
[18] Kheon Yigu "Issues of the "Open Space in Orion" Presented in SDA Literature (1846-
1994)" Sahmyook University publicado online em
http://www.scribd.com/full/38023491?access_key=key-1cyqu447mw2m7pn6swpz
[19] Martin Carey, "The Opening Orion", publicado online em
http://lifeassuranceministries.org/proclamation/2009/3/openingorion.html

[20] Merton Sprengel e Dowell Martz, "Orion Revisited", Review and Herald, 25/3/1976, pp. 4-7; "How Open is Orion's Open Space?", Review and Herald, 01/04/1976, pp. 9-11; "Does the Open Space Exist Today?,"Review and Herald 08/04/1976, pp. 6-8.
[21] Ellen White’s Growth in Understanding Her Own Visions; disponível no site www.ellenwhite.com, Appendix G.
[22] Alden Thompson, Inspiration, p. 297.
[23] A palavra hebraica para canto significa literalmente "extremidade". A interpretação de "pontos cardeais" portanto, não prospera. A Terra, sendo redonda, nunca terá um ponto "extremo".
[24] Veja Herbert Douglass, Mensageira do Senhor, p. 113.
[25] Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 57.

[26] White Estate, "The 1911 Edition of "The Great Controversy"An Explanation of the Involvements of the 1911 Revision", p. 8, disponível em www.EllenWhite.com. Segundo o seu filho Willie White, ela considerava o Grande Conflito como uma "expansão dos temas publicados no livro Spiritual Gifts, vol. 1 (1858) e Primeiros Escritos. Ellen White, "W. W. PRESCOTT AND THE 1911 EDITION OF The Great Controversy", p. 1, disponível em www.EllenWhite.com.
[27] Mensagens Escolhidas, vol. 3, 447. Aqui a tradução em português deixou a desejar já que "flash-light pictures" em inglês (fotos rápidas com flash) foi traduzido como "rápidas visões". O sentido de "fotos" estáticas certamente se perdeu.

[28] Veja Yuri Mendes, Os Mistérios de Órion publicado pela Casa Publicadora Brasileira, 2008.

04/11/10

A VENDA DE LIVROS E CDs NA IGREJA: SIM OU NÃO?

Mateus 21:12 e 13 – Tendo Jesus entrado no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam; também derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformais em covil de salteadores
A aplicação do texto:Vamos ver as lições que a história pode ensinar. Por elas, aprendemos que Jesus condenou o “comércio”, ou a “adoração”, isto é, a “atividade”, que tenha as seguintes características (pense num tipo de atividade que acontecesse assim):
1) Dentro da igreja
2) Como atividade principal (e não secundária, necessária, ou de apoio), o negócio financeiro.
3) Que fixasse standes dentro da igreja, com uma marca comercial.
4) Com vendedores de CDs, ou livros, que não tivessem o cunho de ministérios da pregação ou da música, mas da compra e venda. Isto é, que não fossem cantores, ou autores, mas sim homens cujo ramo principal de sustento fosse serem comerciantes.
5) Tão intensa a ponto de perturbar o culto, dando a ideia a quem passasse ou participasse do culto, que estava não na igreja mas na feira.
6) A igreja parecer mais um estabelecimento comercial fixo e único dos vendedores. Um ponto de referência pra quem quisesse fazer uma compra.
7) Com as pessoas a entregar a mercadoria e a receber o dinheiro; o lucro como alvo.
Comparação:
1) Os livros e CDs estão a ser vendidos dentro do lugar de culto?
2) Os que estão ali para apresentar os livros e CDs foram somente para isto?
3) Os que estão a transacionar, não são missionários, nem cantores, nem crentes, nem adoradores, mas sim, vendedores, que estão ali só para defender os seus interesses económicos através da venda, porque a sua profissão é de natureza comercial?
4) A atividade do culto tem sido substituída pela atividade de mercado? As vendas têm acontecido nas horas de adoração, suprimindo-as ou perturbando-as?
5) A igreja está a transformar-se num estabelecimento comercial fixo dos vendedores? Ou um shopping-point referência para os consumidores?
6) As pessoas que estão a facilitar ou a participar na aquisição das obras estão com o sentido do lucro?
Se a resposta for “sim” para todas as perguntas acima, então a resposta é que a igreja se transformou numa "casa de vendilhões".  Estamos a tentar responder ao texto bíblico.
Conclusão:
Faço votos para que a venda de livros e CDs aos membros da sua/nossa igreja sejam um instrumento de benção, que facilite o acesso à pregação/testemunho escrita ou gravada.

31/10/10

FANATISMO E REAVIVAMENTO VERDADEIRO NA IGREJA ADVENTISTA

Tem havido um grande interesse ultimamente nos assuntos de cariz carismático dentro do Adventismo.

Parte desta apreensão dá-se pela visão de Ellen White publicada em Mensagens Escolhidas vol. 2, p. 36-39, onde ela viu os excessos carismáticos e emocionais do movimento da Carne Santa em 1900 e advertiu a Igreja contra os mesmos. O culto da Carne Santa degenerou-se em espiritualismo e incluía "tambores, gritos, dança e música". Muitos erroneamente vêem aqui uma alusão ao estilo de música sacra contemporânea, principalmente a que usa da "bateria".

Realizei um estudo para esclarecer algumas questões pessoais sobre a música da Carne Santa e seu culto que resultou no artigo "Ellen White Era Contra a Bateria na Música Sacra?", disponível aqui neste site.

Desde a publicação deste artigo tem havido respostas bastante apaixonadas por alguns blogueiros adventistas que crêem que o artigo abrirá as portas para o carismatismo na IASD. Houve ataques pessoais e inflamados no afã de proteger a "sã doutrina". Fui acusado de usar da mentira e desonestidade exegética e jornalística inúmeras vezes. Um deles até expressou o desejo de que o artigo fosse aceito de maneira universal pela igreja para que a apostasia final fosse finalmente desencadeada no Adventismo. (Quem disse que o extremismo não existe mais na IASD?)

Por outro lado, teólogos, pastores, músicos, jovens e líderes da IASD no Brasil e exterior expressaram profundo contentamento pelos esclarecimentos e desmistificação do ocorrido em Indiana em 1900 e elogiaram as conclusões equilibradas do artigo no que tange ao uso da percussão e implicações escatológicas da música adventista.

Recentemente, o site Música e Adoração publicou um artigo de George Rice intitulado "Experiências Carismáticas da Igreja Adventista: Passado e Futuro" escrito quando este fez parte no White Estate em 1990 e que, segundo alguns blogueiros adventistas, contradiz as conclusões do meu artigo, ou apresenta a opinião "oficial" da IASD sobre a visão de Indiana. Essas são alusões claras às "heresias" da minha pesquisa.*

No entanto, uma leitura mais detalhada do artigo mostra que Rice não contradiz as conclusões que apresentei no artigo sobre a bateria. Ele não trata da parte que a "bateria" ou percussão supostamente terão na escatologia adventista. Rice cita a visão de Indiana e trata de contextualizar os "tambores" da visão estritamente ao contexto de 1900 como eu e outros estudiosos adventistas fizeram, enquanto se concentra na parte que a música em seus aspectos gerais terá em auxiliar na contrafacção de verdadeiros reavivamentos na IASD.

George Rice também não tenta traçar paralelos entre os elementos específicos a Indiana e a música adventista actual. A música como "laço nas mãos de Satanás" é a maior preocupação de Rice e isto é compatível com a visão de Ellen White. (Aqui Rice compartilha da minha opinião de que os elementos de Indiana não esgotam as manifestações carismáticas hoje. Prova disso é o fato de que os 'tambores' específicos a Indiana não fazem parte das experiências de êxtase de muitas igrejas pentecostais tradicionais modernas. O êxtase ocorre ao som de música sacra clássica ou tradicional.)

Note também que para Ellen White, a música como "laço" não se refere somente à que "choca os sentidos" nos movimentos espiritualistas, carismáticos ou pentecostais, mas a toda música que auxilie no falso culto, seja este solenemente contemplativo ou com êxtase carismático. A mera ausência de “balbúrdia e ruído” não implica necessariamente em um culto verdadeiro.
Veja o que ela diz da música como "laço" na Missa Católica:

"A música é excelente. As belas e graves notas do órgão, misturando-se à melodia de muitas vozes a ressoarem pelas elevadas abóbadas e naves ornamentadas de colunas, das grandiosas catedrais, não podem deixar de impressionar a mente com profundo respeito e reverência. Este esplendor, pompa e cerimónias exteriores, que apenas zombam dos anelos da alma ferida pelo pecado, são evidência da corrupção interna. … O fulgor do estilo não é necessariamente índice de pensamento puro, elevado. Altas concepções de arte, delicado apuro de gosto, existem amiúde em espíritos que são terrenos e sensuais. São frequentemente empregados por Satanás a fim de levar homens a esquecer-se das necessidades da alma, a perder de vista o futuro e a vida imortal, a desviar-se do infinito Auxiliador e a viver para este mundo unicamente." (O Grande Conflito, p. 566-567.)

Veja como os elementos artísticos acima descrevem bem o que ocorre em muitas Igrejas Adventistas hoje. Mas seriam esses medidores seguros do nível de espiritualidade da congregação?

Para Ellen White, não.

Ela condena a Missa e os seus elementos "salvíficos", do qual a música contemplativa faz parte. Esses elementos salvíficos fazem o adorador desviar –se do "infinito Auxiliador" e a buscarem a salvação pelas obras e na acção salvífica da Liturgia:

Disse Ratzinger antes de se tornar Bento XVI:
"Esta acção de Deus, que ocorre através da fala humana, é a acção "real" pela qual a Criação espera. Os elementos da terra são transubstanciados, retirados por assim dizer, de sua base humana, e transformados no corpo e sangue de nosso Senhor. ... Isso é real sobre a liturgia cristã: Deus age e faz o que é essencial." (Ratzinger, o Espírito da Liturgia, 2000 p. 173).

A subtileza do erro é: Deus age através do elementos da liturgia (pão e vinho) para a expiação, fazendo de nenhum efeito o sacrifício "de uma vez por todas" na cruz.

Adventistas zelosos pela música e adoração caem facilmente no mesmo erro e sua música também se torna "um laço" nas mãos de Satanás para desviá-los da centralidade de Cristo no culto a uma espécie de "transubstanciação musical", uma ênfase exagerada na "perfeição musical e idolátrica" para que o culto se torne uma espécie de "sacrifício expiatório". (Um conceito que ajuda neste erro de "música para salvação" é a analogia da música inapropriada como "fogo estranho", que fere princípios bíblicos de exegese e leva consigo a heresia da música para salvação.)

Um livro que promove este conceito de "justificação pela música" é o livro de Dario Pires de Araújo Música, Adventismo e Eternidade em que o autor considera a música como "instrumento de salvação", "eficaz para a salvação" para citar algumas das expressões usadas. Música sacra "para salvação" é o maior "laço" que Satanás pode usar para levar adoradores ao falso culto. (A música sacra dever ser instrumento de pregação, puramente funcional e estar subserviente à centralidade de CRISTO no culto. Embora importante para adicionar ao interesse do culto, a qualidade desta não tem qualquer peso para a salvação.)

No que tange às conclusões do artigo de George Rice sobre o carismático na IASD, creio serem necessárias algumas observações:

1. Creio que George Rice poderia ter abordado os perigos de ficarmos estacionados no extremo do culto formal meramente para fugir de um possível "falso reavivamento". Mas acredito também que o artigo não se propôs a ser uma análise exaustiva do assunto da adoração adventista, que possui mais complexas nuances.

2. A título de contraste, George Rice também cita passagens de Ellen White que enfatizam um louvor calmo, tranquilo e contemplativo mas parece ignorar outras citações onde ela pede mais energia e poder no culto. (Veja Patriarcas e Profetas, p. 591; Evangelismo, p. 505-8, 512; Educação, p. 39; Manuscript Releases vol 5, p. 424). Note que o modelo de adoração congregacional dos Salmos também é bem mais exultante e vibrante do que certas citações "escolhidas" de Ellen White. Davi conclama os povos a darem altos brados e fazer um som exultante, alto e jubiloso ao Senhor. (Veja o Salmo 98). Sem dúvida há necessidade de equilíbrio nesta questão.

3. Baseando-se no aspecto de condicionalidade de algumas profecias de Ellen White e em seus apelos para que não permitamos que o fanatismo crie raízes, é seguro continuar a afirmar que o aparecimento dos excessos espiritualistas da Carne Santa estão condicionados à resposta da Igreja a esses falsos reavivamentos. Por isso as inúmeras advertências contra isso nos escritos de Ellen White que têm sido acatadas à risca (ao extremo?) até hoje pela Igreja e precisamos nos manter firmes nesta questão até ao fim. É possível que o carismático se arraigue na IASD? Sim, mas só se deixarmos que isso aconteça ao esquecer os "ensinos do passado".

4. Embora Rice pareça acreditar que a IASD corre um perigo real e iminente de cair na tendência carismática por estarmos cada vez "mais perto do fim", ele não oferece um provável cenário onde a teologia Adventista do Espírito Santo e de adoração poderiam ser totalmente subvertidos criando o canteiro onde o culto carismático crie raízes. É como dizer que a IASD vai abandonar a guarda do sábado pelo domingo. É possível? Sim, mas muito pouco provável.

5. Que houve elementos carismáticos isolados na IASD é um fato histórico. A contrafacção do verdadeiro reavivamento tem ocorrido na IASD desde os primórdios e não é algo a se esperar exclusivamente para o futuro. No Brasil, o surgimento do grupo carismático Igreja Adventista da Promessa já em 1932 por um ex-pastor adventista é prova disso. Esses movimentos não são exclusivos ao nosso tempo, mas fazem parte das três rãs de Apocalipse 16:13-14 que agem desde 1844. Mas note que todos esses grupos no Brasil e em outras partes do mundo, se desligaram da IASD e formaram seus próprios movimentos. Isso é prova contundente do repúdio da IASD a estas manifestações por irem contra a nossa bem estabelecida teologia do Espírito Santo.
Em suma, longe de contradizê-las, creio que o artigo de Geoge Rice corrobora as conclusões que teci sobre o movimento da Carne Santa no que tange à contextualização de seus elementos "tambores, música, gritos e dança" e também aos aspectos de condicionalidade do cumprimento da profecia na IASD. Ele diz que

Devemos estar em guarda, que nossa experiência espiritual esteja fundamentada na Palavra de Deus, e não em experiência extáticas. Fortes alertas são dados àqueles que buscam um pico emocional através de uma “experiência espiritual”. (George Rice em "Experiências Carismáticas da Igreja Adventista: Passado e Futuro.")

No entanto, a fim de equilibrar a posição de Ellen White sobre reavivamentos e fanatismo, creio que um episódio na história da igreja serve para elucidar a visão de Ellen White sobre o assunto:

No início de 1885, Ellen White orou por um reavivamento na comunidade adventista de Healdsburg, Califórnia, onde morava. A resposta veio através de uma série de reuniões de reavivamento dirigidas pelo Pastor E. P. Daniels em agosto, no colégio Adventista da cidade. Ellen White a esta altura já estava em viagem pela Europa. A igreja local respondeu com grande interesse espiritual e profunda reconsagração durante cinco semanas.

Porém, devido a alguns elementos de fanatismo que se manifestaram (não há evidências de que houve manifestações de êxtase ou espiritualismo nas reuniões) e erros de julgamento dos líderes das reuniões, a liderança daquela Associação decidiu interromper as reuniões, contrariando a vontade da comunidade adventista naquele lugar.

Ao se inteirar da situação, Ellen White escreveu àqueles líderes:

...em referência ao reavivamento em Healdsburg gostaria de dizer que não estou de acordo com o vosso tratamento desse assunto. Que houve fanáticos ali e que influenciaram a obra, não vou negar. Mas se no futuro agirdes da mesma forma como o fizestes neste caso, podeis ter certeza de uma coisa, condenareis a obra da chuva serôdia quando ela vier. Pois vereis naquele tempo maiores evidências de fanatismo. (Carta 76 1886).

Esta declaração surpreendente é crucial para o entendimento do reavivamento verdadeiro da Chuva Serôdia: ele terá elementos extremos de fanatismo e até maiores do que vemos hoje! E haverá o perigo de condenar esse derramamento do Espírito Santo pelo zelo de "proteger" a Igreja.

Segundo Ellen White o zelo desenfreado de condenar tudo que fuja da "tradição", normas e métodos estabelecidos e opiniões pessoais dos líderes pode até impedir o derramamento da Chuva Serôdia!

Qual NÃO deve ser nossa atitude quanto ao reavivamento verdadeiro que apresente elementos de fanatismo? Ela diz:

Homens podem se pronunciar contra isso [reavivamento] porque ele não se alinha com suas opiniões pessoais. O fanatismo virá como sempre vem quando Deus opera. A rede ajunta o bom e o mau, mas quem se atreverá em jogar tudo fora, somente porque alguns não são peixes bons? (Veja Mat. 13:24-30)

Quando for feito um esforço na obra de Deus, Satanás estará presente para ser notado, mas seria a obra dos ministros estender a mão e dizer: "Isso não deve continuar, pois não é obra de Deus"? (Ibid.)

E qual deve ser a atitude da liderança da IASD e dos seus membros quando houver extremos e excessos nos reavivamentos e na Chuva Serôdia? Sobre Healdsburg ela diz:

Então eram necessários homens de discernimento, de mentes calmas e equilibradas para agir em caso de perigo e indiscrição, a fim de ter uma influência a moldar a obra. Poderíes tê-lo feito. (Ibid.)

Veja que o papel da liderança é com "discernimento, calma e equilíbrio" agir para que a obra se mantenha livre de excessos mas, ao mesmo tempo, não devem interferir com a obra do Espírito Santo. A preocupação de Ellen White aqui é que, no zelo de 'super-proteger' a IASD da contrafacção carismática, caiamos no erro de condenar a obra do Espírito Santo como obra Satânica ou que impeçamos a chuva serôdia através deste zelo.

Qual o resultado de se condenar a obra do Espírito Santo como sendo do inimigo?

Temo que tenhais ofendido ao Espírito de Deus. Os frutos foram bons na obra em Healdsburg mas o espúrio entrou juntamente com o genuíno. (Ibid.)

O Senhor trabalhou em vosso meio mas Satanás, que está sempre ativo buscando oportunidades favoráveis, se intrometeu para adicionar fanatismo à obra do Senhor, para semear joio com a boa semente. Apegai-vos a tudo o que seja bom. Não tenhais espírito de Farisaísmo; não tenhais atitudes de superioridade ou auto-confiança. (Carta 21, 1886)

Deveríamos nos perguntar: É essa a atitude que temos visto em nós mesmos e na liderança da IASD? Será que temos caído em condenação por tentar super-controlar a obra do Espírito Santo?

Falando ainda de outro reavivamento em Battle Creek em 1893, ela diz:

Cumpre-nos ser muito cuidadosos de não ofender o Espírito de Deus, não declarando que o ministério de Seu Espírito Santo é uma espécie de fanatismo. (ME 1, p. 130)

Ellen White deixa claro que o reavivamento verdadeiro trará consigo elementos de fanatismo. Não que ele deva trazer, mas a obra de Deus sempre é acompanhada por contrafacções e paralelos satânicos. Em outro lugar ela explica que:

Há uma classe de pessoas sempre dispostas a escapar por alguma tangente, que desejam apreender qualquer coisa estranha, maravilhosa e nova; mas Deus quer que todos procedam calma e ponderadamente … Devemos guardar-nos de criar extremos, de animar os que tendem a estar ou no fogo, ou na água. (Testemunhos para Ministros, p. 227-228.)

Temos descoberto em nossa experiência que, se Satanás não consegue manter as almas no gelo da indiferença, ele tentará empurrá-las no fogo do fanatismo. Quando o Espírito do Senhor se manifesta entre Seu povo, o inimigo se aproveita da oportunidade também, buscando moldar a obra de Deus através de traços de carácter peculiares e não-santificados daqueles que estão unidos a esta obra. (Testimonies, vol. 5, p. 644).

Novamente aqui vemos a obra do Espírito Santo acompanhada por elementos fanáticos. O problema é lançar fora "o bebé com a água" só por que alguns escolhem fanatizar esses esforços. Note também que ela descreve muitos na igreja como estando no "gelo da indiferença":

*Por acaso essa expressão "gelo da indiferença" não define o culto formal e friamente solene que vemos em muitas igrejas hoje?

*É assim que o Espírito Santo se revela? Será que estamos mais propícios a receber o derramamento do Espírito nos mantendo nesse "gelo"?

*Por outro lado, será que meros "ornamentos" no culto (música) garantem o derramamento do Espírito?

Veja como a oposição a muitos destes reavivamentos cai na questão de métodos. Cito aqui a opinião de Ellen White sobre a necessidade de novos métodos e de discernimento para que não impeçamos a obra do Senhor. Aqueles que têm o zelo pela verdade devem ter uma atitude de humildade para saber discernir o que são heresias e erro espiritualista de meras divergências de opiniões pessoais ou metodologia:

Deus escolhe Seus mensageiros e lhes dá Sua mensagem; Ele diz: "Não os impeçais". Novos métodos devem ser introduzidos. O povo de Deus deve despertar para as necessidades dos tempos em que estão vivendo. (Reflectindo a Cristo, p. 242)

[Deus] abençoará a todos os que trabalharem no espírito que Ele derramar sobre a obra. A estes ele dará favor e sucesso. À medida que novos campos são abertos, novos métodos e novos planos devem surgir a partir de novas circunstâncias. (RH, 3 de Junho de 1902 par. 5)

…pois nem todas as mentes devem ser alcançadas pelos mesmos métodos. (Testimonies vol. 6, p. 116)

Note como esta afirmação acima é elucidativa na questão da evolução cultural e também musical no culto. Certamente Ellen White não advoga a ideia de que estilos musicais de uma época ou "tempo" devam ser compulsórios a outros tempos e épocas. Muito menos pretende ela impor métodos do passado a épocas futuras ou a diferentes lugares, como por exemplo, usar a língua portuguesa do século 19 para pregar o evangelho hoje. A mensagem precisa ser relevante aos tempos e música é parte deste processo. E ela adverte que "É delicado e perigoso...interferir com a obra de Deus." (MR 21, p. 147).

Aqui vão algumas conclusões para ponderação:

1. O Espírito Santo nunca se revela na confusão, ruído, falar em línguas estranhas, emocionalismo desvairado e espiritualismo descontrolado. Qualquer reavivamento na IASD que se baseia nesses devem ser rechaçados sumariamente como contrafacção do inimigo.

2. Cultos, cantores e grupos musicais ou ministérios de louvor adventistas que utilizam da música contemporânea e seus instrumentos (novos métodos) e que não fomentam o carismatismo não podem nem devem ser considerados como obra Satânica meramente por uma divergência de metodologia. Estes têm realizado uma obra de reavivamento genuíno.

3. O emocionalismo exagerado pode ser activado pela música? Sim. Mas as manifestações espiritualistas severas que acompanham o culto pentecostal como falar em línguas, desmaios, possessões e exorcismos necessitam de uma base teológica para se sustentarem, o que não existe na doutrina Adventista.

4. O papel das emoções no culto Adventista precisa ser novamente explorado na visão de Ellen White para que o repúdio dessas não leve ao culto formal e sem vida que ela chamou de “um mal”, ou que uma ênfase em sua preeminência crie o canteiro onde tendências carismáticas tomem raízes. Ela diz que "Cristo e este crucificado deveria tornar-se o tema de nossos pensamentos e despertar as mais profundas emoções de nossas almas". (Testimonies, vol. 2, p. 212). "... o plano da salvação será magnificado e reflexões do Calvário despertarão emoções ternas, sagradas e cheias de energia. Louvores a Deus e ao cordeiro estarão em seus corações e em seus lábios." (Ibid., p. 634).

5. Precisamos nos desvencilhar do medo e apreensão excessivos sobre o culto da Carne Santa que "congela" nosso culto. Não impeçamos o verdadeiro reavivamento por medo do fanatismo. Ellen White disse que "Nada temos que recear quanto ao futuro, a menos que esqueçamos a maneira em que o Senhor nos tem guiado, e os ensinos que nos ministrou no passado". (Eventos Finais, p. 72).

6. A liderança e a Igreja precisam permitir que o Espírito Santo trabalhe livremente em nosso meio, permitindo que novos métodos sejam empregados no avanço da causa sem colocar travas ou exercer zelo exagerado na proteção do rebanho, condenando o que é obra de Deus como sendo do inimigo, como foi no caso de Healdsburg. Erros devem ser corrigidos com discernimento, sempre voltando-se à Bíblia e Espírito de Profecia, mas nunca combater extremismo com extremismo.

7. Diferenças de opinião sobre o que constitui reavivamento, como o foi no caso de Healdsburg ou estilo de culto e música não devem interferir com a obra do Espírito Santo. A adoração adventista precisa ter mais da actuação espontânea do Espírito. Ela diz que "Antes de os juízos finais de Deus caírem sobre a Terra, haverá, entre o povo do Senhor, tal avivamento da primitiva piedade como não fora testemunhado desde os tempos apostólicos." (O Grande Conflito, p. 464).

8. No entanto, não impedir o Espírito Santo não significa necessariamente que podemos aceitar todo "vento de doutrina" que bate às nossas portas ou permitir que qualquer um assuma posição de liderança porque se acha "cheio do espírito". Devemos continuar a "provar os espíritos".

9. A IASD precisa seguir avante com cautela na questão da adoração e dos dons do Espírito. Não sejamos os primeiros a adotar a evolução natural da música sacra, nem os últimos a abandonar o que não é mais relevante hoje.

10. Finalmente, lembremos sempre que "É delicado e perigoso...interferir com a obra de Deus".

Maranata!~
André Reis
_________________________
*O artigo de George Rice é uma sequência a uma série de artigos sobre o carismatismo na IASD publicou pelo neto de Ellen White, Arthur White na Review and Herald entre 1972-73. É curioso o fato de que em sua série de artigos, Arthur White não trata do movimento da Carne Santa. Para ler o artigos, visite www.EllenWhite.com e busque "Charismatic Experiences in Early Seventh-day Adventist History."

25/10/10

SERÁ ERRADO TER UMA ÁRVORE DE NATAL NA IGREJA?

Aproxima-se o Natal, e os preparativos para o mesmo para muitos já começaram. Os momentos de festa objectivam, também, deixar-nos mais cheios de alegria, mas também de stress e gastos desnecessários. E entre nós cristãos, a cada fim de ano,surge sempre esta pergunta: “Será errado ter uma árvore de natal na igreja?”. Bom, desta vez, vou deixar que uma conselheira bem mais experiente que eu responda à pergunta.
Ellen G. White: “Deus muito Se alegraria se no Natal cada igreja tivesse uma árvore de Natal sobre a qual pendurar ofertas, grandes e pequenas, para essas casas de culto. Têm chegado a nós cartas com a interrogação: Devemos ter árvores de Natal? Não seria isto acompanhar o mundo? Respondemos: Podeis fazê-lo à semelhança do mundo, se tiverdes disposição para isto, ou podeis fazê-lo muito diferente. Não há particular pecado em seleccionar um fragrante pinheiro e pô-lo nas nossas igrejas, mas o pecado está no motivo que induz à acção e no uso que é feito dos presentes postos na árvore.
A árvore pode ser tão alta e os seus ramos tão vastos quanto o requeiram a ocasião; mas os seus galhos estejam carregados com o fruto de ouro e prata de vossa beneficência, e apresentai isto a Deus como vosso presente de Natal. Sejam as vossas doações santificadas pela oração”. Review and Herald, 11 de Dezembro de 1879.
“As festividades de Natal e Ano Novo podem e devem ser celebradas em favor dos necessitados. Deus é glorificado quando ajudamos os necessitados que têm família grande para sustentar”. Manuscrito 13, 1896.
Árvore de Natal com Ofertas Missionárias não é Pecado.
“Não devem os pais adoptar a posição de que uma árvore
de Natal posta na igreja para alegrar os alunos da Escola Sabatina seja pecado, pois pode ela ser uma grande bênção. Ponde-lhes diante do espírito objectos benevolentes. Em nenhum caso o mero divertimento deve ser o objectivo dessas reuniões. Conquanto possa haver alguns que transformarão essas reuniões em ocasiões de descuidada leviandade, e cujo espírito não recebeu as impressões divinas, outros espíritos e caracteres há para quem essas reuniões serão altamente benéficas. Estou plenamente convicta de que inocentes substitutos podem ser providos para muitas reuniões que desmoralizam”. Review and Herald, 9 de Dezembro de 1884.
Outras citações sobre o Natal:“A Bíblia não nos informa a data precisa do nascimento de Jesus. Se o Senhor tivesse considerado este conhecimento essencial para a nossa salvação, ele se teria pronunciado através dos Seus profetas e apóstolos, para que pudéssemos saber tudo a respeito do assunto. Mas o silêncio das Escrituras sobre este ponto dá-nos a evidência de que ele nos foi ocultado por razões as mais sábias.”
“Sendo que o 25 de Dezembro é observado em comemoração do nascimento de Cristo, e sendo que as crianças têm sido instruídas por preceito e exemplo que este foi indubitavelmente um dia de alegria e regozijo, ser-vos-á difícil passar por alto este período sem lhes dar alguma atenção. Ele pode ser utilizado para um bom propósito.”
“Temos o privilégio de afastar-nos dos costumes e práticas desta época degenerada; em vez de gastar meios meramente na satisfação do apetite, ou com ornamentos desnecessários ou artigos de vestuário, podemos tornar as festividades uma ocasião para honrar e glorificar a Deus. Cristo deve ser o objectivo supremo; mas da maneira em que o Natal tem sido observado, a glória é desviada d´Ele para o homem mortal, cujo carácter pecaminoso e defeituoso tornou necessário que Ele viesse ao nosso mundo. Jesus a Majestade do Céu, o nobre Rei do Céu, pôs de lado a Sua realeza, deixou o Seu trono de glória, a Sua alta posição, e veio ao nosso mundo para trazer ao homem caído, debilitado nas faculdades morais e corrompido pelo pecado, auxílio divino… Os pais deviam trazer essas coisas ao conhecimento de seus filhos e instruí-los mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, em suas obrigações para com Deus.”
Nota: Todas as citações acima colocadas são da pena de Ellen G. White, e encontram-se no livro Lar Adventista, às páginas 477 – 482.
Natal – Ocasião Para Honrar a Deus ( O Lar Adventista, pág. 477-478)
Prestou bem atenção no que ela diz sobre o Natal? Em suma ela crê que:
1. Não existe base bíblica para o comemorar;
2. A sua observância é popular e não bíblica;
3. Não há base histórica;
4. Mesmo assim (não tendo base bíblica ou histórica) o dia NÃO DEVE ser passado por alto, mas é uma ocasião para honrar a Deus.

22/10/10

Como Ler Ellen White - Capítulo 3 "Ellen White e a Bíblia" (George Knight)

Um dos pontos que mais geram desentendimentos entre alguns membros da Igreja Adventistas é como ler correctamente Ellen White. Para muitos, ela é autoridade final em questões de prática cristã e interpretação bíblica. Cito o exemplo de dois escritores adventistas da Austrália que chegaram a considerar Ellen White a maior "profetisa de todos os tempos."

Na questão de interpretação bíblica, Ellen White é considerada como palavra final. Ou seja, se ela interpretou certa passagem de certa maneira, então devemos ignorar todas as outras interpretações. Vejam que Ellen White nunca sequer se arrogou a autoridade máxima em interpretação bíblica. Se assim fosse, ela estaria acima da própria Bíblia, podendo dizer exactamente o que ela significa. Até mesmo o White Estate, os depositários dos seus escritos concluíram que nos seus escritos só 2% podem ser considerados exegese bíblica. Isso sem dúvida lança luz sobre a possibilidade de outras leituras sobre interpretação profética do Apocalipse e escatologia por exemplo.

Enfim, são questões que precisam ser abordadas a fim de evitar o extremismo tão frenético que ciclicamente se levanta. Abaixo apresentamos uma seleção do capítulo 3 do livro "Como Ler Ellen White" do Dr. George Knight, professor emérito da Andrews University .

___________________________________
Capítulo 3 - Ellen White e a Bíblia (pág.26-27)

"Todo cristão, em consequência, deve tomar a Bíblia como regra perfeita de fé e de conduta. Deve orar com fervor para ser socorrido pelo Espírito Santo em seu estudo das Escrituras, na busca de toda verdade e de todos os seus deveres. Ele não tem a liberdade de dela se desviar para descobrir seus deveres através de um dom de qualquer tipo. Dizemos que a partir do momento em que ele age assim, o cristão coloca os dons em um lugar errado e toma uma posição extremamente perigosa. A Palavra deve ser colocada em primeiro lugar e a Igreja deve fixar-se nela, como regra de conduta e fonte de sabedoria, a fim de aprender o que é seu dever ‘em toda boa obra’. Mas se uma parte da Igreja se afasta para longe das verdades da Bíblia e torna-se fraca, doente, e o rebanho se dispersa e pareça necessário a Deus empregar os dons do Espírito para corrigir, fortalecer e curar os afastados, devemos fazê-lo. (Review and Herald, 21 Abril 1851)

(...) em 1868, James White advertiu aos crentes que eles devem ‘deixar os dons no lugar que lhes é devido na Igreja. Deus nunca os colocou em primeiro lugar, ao nos orientar de considerá-los como um guia no caminho da verdade, como via para chegar ao céu. É Sua Palavra que Ele exaltou. A lâmpada, cuja luz clareia a marcha em direção ao reino é formada do Antigo e Novo Testamento. Sigam o Antigo e o Novo Testamento. Mas se vocês se afastarem para longe das verdades bíblicas e se vocês estiverem em perigo, é possível que Deus, em um momento de Sua escolha, vos corrija (por intermédio dos dons) e vos conduza à Bíblia.’ ( Review and Herald, 25 de Fevereiro 1868).

"Assim, vemos que James White estava de acordo com sua esposa sobre o lugar de seu dom espiritual em relação à Bíblia. Esta posição reflete também o consenso dos outros responsáveis da Igreja adventista no seu começo. Seria difícil ser mais claro sobre este assunto.

Neste momento reconheçamos que se Ellen White, seu marido e os outros responsáveis adventistas cressem que seu dom de profecia estava subordinado à Bíblia, isto não significava que eles estimassem que sua inspiração fosse de qualidade inferior aos dos escritores bíblicos. Ao contrário, eles pensavam que a mesma fonte de autoridade que falava aos profetas da Bíblia se exprimia através dela.

Encontramos aqui um bom equilíbrio. Mesmo se os adventistas consideram sua inspiração de origem também divina como as dos autores bíblicos, eles não lhe atribuirão o mesmo lugar. Ellen White e seus companheiros adventistas sustentaram que sua autoridade era derivada da autoridade da Bíblia e não podia então lhe ser igual.

Infelizmente, alguns não prestam atenção aos limites que Ellen White colocou em seus próprios escritos. Tais pessoas colocam em primeiro lugar suas idéias de maneira errônea, além do limite das Escrituras, por meio de métodos de interpretação deficientes (que serão examinadas mais à frente). Suas ideias ‘novas’ e ‘progressistas’ contradizem às vezes não somente a Bíblia, mas ultrapassam também os limites estabelecidos por Ellen White, quanto ao uso de seus escritos. Nossa única segurança é ler Ellen White dentro do quadro bíblico. Devemos ter cuidado para não empregar seus escritos para salientar ensinos que não são claramente enunciados pelas Escrituras. Devemos também nos lembrar que o que é necessário para a salvação está já presente na Bíblia.

"... é necessário examinar ainda uma questão. Certos adventistas têm visto em Ellen White um comentarista infalível da Bíblia, no sentido de que deveríamos empregar seus escritos para estabelecer o sentido das Escrituras. Assim, um dos mais importantes escritores adventistas escreveu na Review and Herald em 1946, que ‘os escritos de Ellen White representavam um grande comentário das Escrituras’. Ele chegou a declarar que eles não eram comparáveis a outros comentários no sentido de que eles eram ‘comentários inspirados, suscitados pela ação do Espírito Santo e (que) isto lhe dava uma categoria particular, bem acima de qualquer outro comentário’. (Review and Herald, 9 de Junho 1946).

Mesmo que Ellen White tenha afirmado escrever sob o ponto de vista privilegiado da luz do Espírito Santo, ela não pretendeu que deveríamos tomar os seus escritos como a última palavra do significado das Escrituras. A. T. Jones, ao contrário, num artigo publicado em 1894 sobre o objetivo das obras de Ellen White, considera-os como um intérprete ‘infalível’ da Bíblia. Ele argumentou que o bom uso dos escritos de Ellen White, implicava em ‘estudar a Bíblia através deles’. Tal abordagem, dizia ele, faria de nós ‘grandes conhecedores das Escrituras’ (The Home Missionary Extra, dezembro 1894). A sugestão de Jones serviu de linha de conduta para muitos adventistas do séc. XX.

É essencial reconhecer que Ellen White rejeitou o emprego das suas obras como um comentário infalível. (...)"

"São combates teológicos que dividiram os principais pensadores adventistas durante cerca de três décadas.

O conflito girava em torno da compreensão suposta das passagens bíblicas relativas a essas duas questões. Segundo alguns dos leitores, num testemunho escrito aproximadamente em 1850, ela teria definido a lei, nas epístolas aos Gálatas, como a lei cerimonial. Para essas pessoas, era a prova irrefutável da identificação da lei. Mas a solução apontada conhecia uma dificuldade. O testemunho em questão tinha sido perdido e então a “prova” estava longe de ser conclusiva.

A resposta de Ellen White a esta crise teológica é instrutiva. No dia 24 de Outubro de 1888, ela disse aos delegados divididos na sessão da Conferência Geral de Minneapolis, que a perda do testemunho no qual ela tinha alegadamente resolvido a questão de maneira definitiva, por volta do ano 1850, era providencial. “Deus, afirmou ela, tem aqui uma intenção. Ele quer que façamos referência à Bíblia para obter o testemunho das Escrituras.” (1888 Materials, 153). Por outras palavras, ela estava mais interessada nas afirmações bíblicas sobre o assunto do que pelas suas. Mas os delegados dispunham do livro escrito por ela, Sketches From the Life of Paul (1883), que parecia fixar definitivamente a aprovação sobre a interpretação da lei cerimonial.

"Qual foi a reação de Ellen White ao emprego de seus escritos? No mesmo dia, antes que alguém colocasse em primeiro lugar o argumento tirado do Sketch, ela declarou aos delegados: “Não posso tomar posição por uns ou por outros (sobre a questão de Gálatas), antes de ter estudado a questão.” (1888 Materials, 153) Em resumo, ela rejeitou a abordagem dos que quiseram servir-se dela como uma exegeta infalível. A essência da sua resposta global está na sua declaração aos delegados: “Se vocês sondarem as Escrituras de joelhos, então, vocês conhecerão e serão capazes de responder a quem quer que vos pergunte a razão da fé que está em vocês.”(Idem, 152)

Ellen White manteve a mesma posição vinte anos mais tarde, por ocasião de uma controvérsia sobre a definição do “diário”, em Daniel 8. Nesta disputa, os que defendiam a antiga interpretação pretendiam que a nova derrubava a teologia adventista, em razão do fato de que uma declaração de Ellen White, nos Primeiros Escritos, sustentava a compreensão tradicional. O chefe da fila dos que defendiam a antiga interpretação afirmava que uma mudança em relação a posição estabelecida minava a autoridade de Ellen White. Ele era muito explícito no seu ponto de vista sobre as relações dos escritos de E.G.Wite e a Bíblia. “Deveríamos compreender tais expressões com a ajuda do Espírito de Profecia [manifestado nos escritos de Eleen White]. [...] É neste sentido que o dom de profecia nos foi concedido. [...] todos os pontos devem ser resolvidos” desta maneira. (S.N.Haskell à W.W.Prescott, 15 de Novembro 1907)

"Ellen White mostrou-se em desacordo com o argumento. Ela pediu que os seus escritos “não sejam empregues” para resolver o problema. “Peço aos pastores H., I.,J. e outros membros dirigentes, de não se servirem de nenhuma maneira das minhas obras para sustentar as suas ideias concernentes ao “diário”. [...] Não posso de maneira nenhuma admitir que os meus escritos sejam invocados como dando a solução do problema. [...] Não recebi nenhuma instrução sobre este ponto doutrinário.” (Mensagens Escolhidas vol. 1, 193)

Assim nos dois debates sobre o “diário” e sobre a lei em Gálatas, Ellen White tomou posição para que os seus escritos não sejam empregues para estabelecer o sentido da Bíblia, como se ela fosse uma comentarista infalível."

Os que querem fazer de Ellen White uma comentarista infalível da Bíblia vão de encontro aos seus próprios conselhos e lançam por terra praticamente as suas palavras. Eles fazem dela a luz maior para explicar a luz menor que seria a Bíblia. Robert W. Olson, diretor aposentado do White Estate* (Fundação White) explica bem as dificuldades inerentes a abordagem que consiste em se apoiar sobre um comentarista infalível, quando ele escreve que: “dar a um indivíduo um controlo absoluto sobre a interpretação da Bíblia consistiria, praticamente, a elevar esta pessoa acima dela. Seria um erro permitir, mesmo ao apóstolo Paulo, de exercer um controlo sobre a explicação de todos os outros autores bíblicos. Num outro caso parecido Paulo, e não a Bíblia inteira, representaria a autoridade final.” (One hundred and One Questions, p.41). a nossa única segurança é autorizar os autores da Bíblia a falar por eles mesmos. O mesmo acontece para Ellen White. Leia cada autor por sua própria mensagem, no seu contexto.

Olson aponta uma questão importante quando ele nota que “os escritos de Ellen White são geralmente de natureza homilética ou são orientados em direção à evangelização. Eles não são de natureza estritamente exegética.” (idem). Howard Marshall traz aqui uma ajuda para discernir um pouco mais esta ideia, quando ele ressalta que “a exegese, é o estudo da Bíblia [...] para determinar com precisão o que diversos autores têm procurado dizer a quem se destinava suas mensagens”, enquanto que “o comentário é o estudo da Bíblia para determinar o que ela nos quer dizer.”(Biblical Inspiration, p. 95,96)

"Podemos perguntar: “Como isto se aplica às relações de Ellen White com a Bíblia?” Propomos o seguinte comentário: Ellen White direccionava os seus leitores para a Bíblia para que eles estudassem e descobrissem o que seus autores tinham a dizer (exegese). Mas, além disso, ela tinha o cuidado de aplicar os princípios das Escrituras ao seu tempo e ao seu lugar (comentário). Nos dois casos ela serviu, como ela própria dizia, como "uma luz menor para levar homens e mulheres à luz maior"(Colporteur Ministry 125).

Ela não queria dizer que ela tinha um grau de inspiração menos importante que os dos escritores bíblicos, mas que a função dos seus escritos era de conduzir as pessoas à Bíblia.

Tendo examinado o importante conselho de não fazer de EW uma comentarista infalível do significado das Escrituras e tendo reconhecido que ela se manifestou "geralmente" na ordem da homília (sermão) mais do que na exegese, é importante notar que de tempos em tempos, ela se manifestou sobre a exegese de um texto. Devemos determinar quais comentários são de natureza exegética, lendo estes comentários relacionados ao contexto específico de passagens da Bíblia em questão." Olson foi muito feliz ao escrever: "Antes de afirmar que EW interpreta um texto para os seus leitores de um ponto de vista exegético, deve-se estar previamente seguro de como ela utiliza o texto dado." (One Hundred and One Questions, p. 42).