06/02/10

A NATUREZA DO HOMEM

A maioria dos seres humanos parece gastar pouco tempo meditando sobre a morte, ou mesmo sobre a sua própria natureza, que é a causa fundamental da morte. Tal falta de auto-exame leva à falta de auto-conhecimento, e por isso as pessoas andam errantes pela vida, tomando as suas decisões de acordo com o que ditam os seus próprios desejos naturais. Há uma recusa - embora fortemente mascarada - de admitir o facto de que a vida é tão curta e que logo a fatalidade da morte virá sobre nós. "Pois, o que é a vida? É um vapor que aparece por um pouco, e logo se desvanece". "Certamente morreremos, e seremos como águas derramadas na terra, que não podem ajuntar mais". "São como a erva que cresce; de madrugada (nossa juventude) cresce e floresce, e à tarde corta-se e seca" (Tiago 4:14; 2 Sm. 14:14; Sl. 90:5,6). Moisés, um verdadeiro pensador, reconheceu isto, e suplicou a Deus: "Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos coração sábio" (Sl. 90:12). Por isto, tendo em vista a brevidade da vida, adquirir a sabedoria deve ser a nossa prioridade número um.
As respostas do homem à inevitabilidade da morte variam. Algumas culturas tentaram fazer da morte e dos funerais algo que é parte da vida, para reduzir o sentido de perda e fatalidade. A maioria daqueles que carregam o nome de "cristão" concluiram que o homem tem uma "alma imortal", ou algum elemento de imortalidade dentro dele, que sobrevive à morte, indo, posteriormente, para algum lugar de recompensa ou punição. Sendo a morte o problema mais fundamental e trágico da experiência humana, espera-se que a mente do homem tenha se exercitado para diminuir o seu impacto mental; assim, toda uma gama de teorias falsas têm se levantado com respeito à morte e à própria natureza do homem. Como sempre, estas devem ser testadas à luz da Bíblia, para se descobrir a verdade real sobre este assunto vital. Deve-se lembrar que a primeira mentira relatada na Bíblia é aquela da serpente no jardim do Éden. Contrária a declaração absoluta de Deus de que o homem "com certeza morreria" se ele pecasse (Gn. 2:17), a serpente afirmou: "Certamente não morrereis" (Gn. 3:4). Esta tentativa de negar a inevitabilidade e totalidade da morte tornou-se uma característica de todas as falsas religiões. É evidente que especialmente nesta área, uma doutrina falsa leva a outra, e outra, e outra. Ao contrário, um elemento de verdade leva a outro, como se mostra em 1 Co. 15:13-17. Aqui Paulo salta de uma verdade para outra (observe "se...se...se...").
Para entender nossa verdadeira natureza, precisamos considerar o que a Bíblia diz sobre a criação do homem. O relato está em linguagem clara, a qual, se tomada literalmente, deixa-nos sem dúvida sobre exatamente o quê nós somos por natureza (ver Digressão 18 com respeito à literalidade do Gênesis). "Formou o Senhor Deus o homem do pó da terra...dela (da terra) foste (Adão) tomado; pois és pó, e ao pó tornarás" (Gn. 2:7; 3:19). Absolutamente aqui não há sugestão de que o homem tem qualquer imortalidade inerente; não há parte dele que continue a viver após a morte.
Existe uma notável ênfase bíblica no fato de que o homem é, fundamentalmente, composto apenas de pó: "Nós somos o barro" (Is. 64:8); "homem sendo da terra, terreno" (1 Co. 15:47); "cujo fundamento está no pó" (Jó 4:19); "e o homem voltaria ao pó" (Jó 34:14,15). Abraão admitiu que ele era "pó e cinza" (Gn. 18:27). Imediatamente depois de desobedecer a ordem de Deus no Éden, Deus "lançou fora o homem...para que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma e viva eternamente" (Gn. 3:24,22). Se naturalmente o homem tivesse um elemento imortal dentro dele, isto não seria necessário.

IMORTALIDADE CONDICIONAL

A mensagem, constantemente repetida no Evangelho, é que o homem pode encontrar uma forma de ganhar a vida eterna e a imortalidade através da obra de Cristo. Sendo este o único tipo de imortalidade do qual a Bíblia fala, segue-se que a idéia de eternidade da consciência sofredora pelos feitos errados não tem qualquer apoio bíblico. A única forma de alcançar a imortalidade é através da obediência aos mandamentos de Deus, e aqueles que forem obedientes desta forma vão passar a imortalidade em um estado de perfeição - a recompensa da justiça.
As seguintes passagens deveriam ser prova suficiente de que esta imortalidade é condicional, e não é algo que nós possuimos naturalmente:-
- "Cristo...trouxe a vida e a imortalidade pelo evangelho" (2 Tm. 1:10; 1 João 1:2).
- "Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos (i.e. "inerente em vós"). Quem come a minha carne, e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia" - para lhe dar esta "vida eterna" (João 6:53,54). O argumento de Cristo em João cap. 6 é que ele é o "pão da vida", e que somente através da resposta certa dada a ele pode haver qualquer esperança de imortalidade (João 6:47,50,51,57,58).
- "Deus nos deu (aos crentes) a vida eterna, e esta vida está em seu Filho" (1 João 5:11). Não pode haver esperança de imortalidade para os que não estão "em Cristo". Somente através de Cristo a imortalidade tornou-se possível; Ele é o "autor da vida (eterna)" (Atos 3:15) - "o autor da eterna salvação para todos os que lhe obedecem" (Hb. 5:9). Então, a imortalidade para os homens foi originada através da obra de Cristo.
- O verdadeiro crente busca a imortalidade, e será recompensado por isto com o dom da vida eterna - algo que ele não possui naturalmente (Rm. 2:7; 6:23; João 10:28). Nosso corpo mortal "deve se revestir da imortalidade" na volta de Cristo (1 Co. 15:53); assim, a imortalidade é algo prometido, não possuido agora (1 João 2:25).
- Apenas Deus tem imortalidade inerente (1 Tm. 6:16).

O QUE É A ALMA?

À luz do que foi dito, é inconcebível que o homem tenha uma "alma imortal", ou qualquer elemento imortal naturalmente dentro dele. Agora vamos tentar esclarecer a confusão em torno da palavra "alma".
As palavras em grego e hebraico que são traduzidas como "alma" na Bíblia ("Nephesh" e "Psuche", respectivamente) também são traduzidas das seguintes maneiras:

Corpo ------Respiração
Criatura --- Coração
Mente ----- Pessoa
O próprio
Deste modo, a "alma" refere-se à pessoa, corpo ou eu. A famosa sigla S.O.S., "Save Our Souls" (Salve Nossas Almas) significa claramente "Salva-nos da morte!". A "alma" é, portanto, "você", ou a soma de todas as coisas que compõem uma pessoa. É compreensível, desta forma, que muitas versões modernas da Bíblia (por exemplo, a N.I.V. New International Version) raramente usem a palavra "alma", em vez disto, ela é traduzida como "você" ou "a pessoa". Os animais que Deus criou são chamados "todos os seres viventes" (Gn. 1:20,21). Em hebraico a palavra traduzida como "criatura" aqui é "nephesh", que também é traduzida como "alma"; por exemplo em Gn. 2:7: "...e o homem tornou-se alma vivente". Assim o homem é uma "alma", bem como os animais são "almas". A única diferença entre a humanidade e os animais é que o homem é mentalmente superior a eles; ele é criado à imagem de Deus (Gn. 1:26), e alguns homens são chamados para conhecer o Evangelho através do qual a esperança da imortalidade se abre para eles (2 Tm. 1:10). Com respeito a nossa natureza fundamental e a natureza da nossa morte, não há diferença entre o homem e os animais:
"O que acontece aos filhos dos homens, isso mesmo também acontece aos animais; a mesma coisa lhes acontece (observe a dupla ênfase). Como morre um, assim morre o outro...e nenhuma vantagem têm os homens sobre os animais....Todos (i.e. homens e animais) vão para o mesmo lugar (a sepultura); todos são pó, e todos ao pó tornarão" (Ec. 3:19,20). O escritor inspirado de Eclesiastes ora para que Deus ajude os homens a encarar este fato difícil, "que eles (os homens) possam ver que são em si mesmos como os animais" (Ec. 3:18). Assim, é de se esperar que achem difícil aceitar este fato; na verdade, pode ser humilhante admitir que, por natureza, somos apenas animais, vivendo os mesmos instintos de auto-preservação, sobrevivência do mais forte e procriação. A tradução de Almeida de Ec. 3:18 diz que Deus "prova" o homem ao fazê-lo ver que ele é apenas um animal; i.e. aqueles que forem humildes o suficiente para ser seu povo verdadeiro irão compreender esta realidade, mas aqueles que não forem, vão falhar nesta "prova". A filosofia do humanismo - a idéia de que os seres humanos são de suprema importância e valor - tem se difundido sutilmente através do mundo durante o século vinte. É uma tarefa considerável limpar o nosso pensamento da influência do humanismo. As palavras diretas do Sl. 39:5 nos servem de ajuda: "Todo homem é como um sopro". "Nem é do homem que caminha o dirigir os seus passos" (Jr. 10:23).
Uma das coisas mais básicas que sabemos é que todos os corpos humanos - na verdade, todas as "criaturas vivas" - vão finalmente morrer. Assim, a "alma" morre; isto é exatamente o oposto de algo que é imortal. Não é de surpreender que cerca de um terço de todos os usos das palavras traduzidas como "alma" na Bíblia estão associadas com a morte e destruição da alma. O próprio fato de que a palavra "alma" é usada desta maneira, mostra que não pode ser algo que é indestrutível e imortal:
- "A alma que pecar, essa morrerá" (Ez. 18:4).
- Deus pode destruir a alma (Mt. 10:28). Outras referências a almas sendo destruidas são: Ez. 22:27; Pv. 6:32; Lv. 23:30.
- Todas as "almas" que estavam dentro da cidade de Hazor foram mortas pela espada (Js. 11:11; cf. Js. 10:30-39).
- "...Morreram todos os seres viventes" (Ap. 16:3; cf. Sl. 78:50).
- Freqüentemente a Lei de Moisés ordenava que qualquer "alma" que desobedecesse certas leis deveria ser morta (por exemplo Nm. 15:27-31).
- Referências a alma sendo estrangulada ou enlaçada somente podem fazer sentido se for entendido que a alma pode morrer (Pv. 18:7; 22:25; Jó 7:15).
- "Os que não podem reter a própria vida" (Sl. 22:29).
- Cristo "derramou a sua alma na morte" de tal modo que a sua "alma", ou vida, foi feita como oferta pelo pecado (Is. 53:10,12).
A maioria dos versos em que a palavra ocorre, mostra que "alma" refere-se mais a pessoa ou corpo, do que a alguma fagulha imortal dentro de nós. Alguns exemplos óbvios são:-
- "O sangue das almas" (Jer. 2:34).
- "Quando alguém pecar, intimado a depor em juízo...não denunciar o que viu...quando alguma pessoa tocar em alguma coisa imunda...quando alguma pessoa jurar com os seus lábios" (Lv. 5:1-4).
- "Ó minha alma...tudo que há em mim...Bendize, ó minha alma, ao Senhor, ...É ele quem enche a tua boca de bens" (Sl. 103:1,2,5).
- "Quem quiser salvar a sua vida ("alma") perde-la-á; mas quem perder a sua vida ("alma") por causa de mim...esse a salvará" (Marcos 8:35).
Isto é prova suficiente de que alma não se refere a qualquer elemento espiritual dentro do homem; aqui, "alma" (no grego, "psuche") significa apenas a vida física de alguém, que é como se traduz neste ponto.
- Nm. 21:4 mostra que um grupo de pessoas pode ter uma "alma". A "alma", assim, não pode se referir a uma centelha de imortalidade pessoal dentro de cada um de nós.

04/02/10

QUAL É A DIFERENÇA ENTRE ALMA E ESPÍRITO?

Existe uma infeliz confusão na mente de muitas pessoas no que diz respeito a alma e o espírito. Isto é agravado pelo fato de que em alguns idiomas e traduções da Bíblia, as palavras "alma" e "espírito" têm somente um equivalente. Fundamentalmente a "alma", que se refere a todos os constituintes de uma pessoa, algumas vezes, também refere-se ao espírito. Contudo, na Bíblia, normalmente existe uma diferença de significado entre "alma" e "espírito"; alma e espírito podem ser "divididas em partes separadas" (Hb. 4:12).
As palavras em hebraico e grego para "espírito" ("Ruach" e "Pneuma", respectivamente) também são traduzidas das seguintes maneiras:
Vida .......... Espírito
Mente ........Vento
................. Respiração
Deus usa o seu espírito para preservar a criação natural, incluindo o homem. O espírito do homem, que está dentro do homem, é, assim, a força vital dentro dele. "O corpo sem o espírito está morto" (Tiago 2:26). "Deus soprou-lhe (nas narinas de Adão) o fôlego (espírito) da vida; e o homem tornou-se alma vivente (criatura [Gn. 2:7]) ". Jó fala do "sopro de Deus" como estando "no meu nariz" (Jó 27:3 cf. Is. 2:22). O espírito da vida dentro de nós é, assim, dado ao nascer, e permanece tanto quanto nosso corpo estiver vivo. Quando o espírito de Deus é retirado de alguma coisa, isto perece imediatamente - o espírito é a força da vida. Se Deus "retirasse o seu espírito e fôlego, toda a carne juntamente expiraria, e o homem voltaria ao pó. Se há em ti entendimento, ouve isto" (Jó 34:14-16). Novamente, a última sentença dá a entender que o homem acha muito difícil concordar com esta exposição da sua real natureza.
Quando Deus retira o Seu espírito de nós na morte, não somente o nosso corpo morre, mas cessa toda a nossa consciência. O reconhecimento de Davi sobre isto levou-o a acreditar mais em Deus do que em criaturas fracas, como os homens. O Salmo 146:3-5 é um forte oponente às declarações do humanismo: "Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação. Sai-lhes o espírito, e eles tornam ao pó (o pó do qual somos feitos); nesse mesmo dia perecem todos os seus desígnios. Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio".
Na morte, "o pó volte à terra, como era; e o espírito volte a Deus, que o deu" (Ec. 12:7). Anteriormente mostramos que Deus está presente em todos os lugares pelo Seu espírito. Neste sentido "Deus é Espírito" (João 4:24). Quando morremos, nós "damos o último suspiro", no sentido de que saiu o espírito que estava dentro de nós. Aquele espírito é absorvido pelo espírito de Deus que é tudo à nossa volta; então, na morte "o espírito volta a Deus".
Como o espírito de Deus sustenta toda a criação, este mesmo processo de morte ocorre nos animais. Homens e animais têm o mesmo espírito, ou força vital, dentro deles. "Porque o que acontece aos filhos dos homens, isso mesmo também acontece aos animais; a mesma coisa lhes acontece. Como morre um, assim morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego (espírito); e nenhuma vantagem têm os homens sobre os animais" (Ec. 3:19). O escritor continua dizendo que não há diferença discernível quanto a onde vão o espírito dos homens e dos animais (Ec. 3:21). Esta descrição dos homens e dos animais tendo o mesmo espírito e morrendo a mesma morte parece aludir, de volta, à descrição do quanto os dois, homens e animais, que têm o espírito de vida de Deus (Gn. 2:7; 7:15), foram destruidos pela mesma morte no dilúvio: "Pereceram todos os seres viventes que se moviam sobre a terra, tanto de ave como de gado e de animais selvagens, e de todo réptil que se arrasta sobre a terra, e todo homem. Tudo o que tinha fôlego (espírito) de vida...morreu...Assim foram exterminados todos os seres" (Gn. 7:21-23). Prosseguindo, observe como o Sl. 90:5 se assemelha à morte no dilúvio. O relato em Gênesis 7 mostra claramente que, em termos fundamentais, o homem está na mesma categoria que "toda carne...toda substância viva". Isto se deve ao fato deles terem o mesmo espírito de vida dentro de si.

QUAL É O ESTADO DA PESSOA NA MORTE?

Do que aprendemos até aqui sobre alma e espírito, deve seguir que enquanto morta, uma pessoa é totalmente inconsciente. Embora as ações daqueles responsáveis perante Deus sejam lembradas por Ele (Ml. 3:16; Ap. 20:12; Hb. 6:10), não há nada na Bíblia para sugerir que nós temos qualquer consciência durante o estado de morte. É difícil argumentar contra as claras declarações seguintes, concernentes a isto:
- "Sai-lhes (do homem) o espírito, e eles tornam ao pó; nesse mesmo dia (momento) perecem todos os seus desígnios" (Sl. 146:4).
- "Os mortos não sabem coisa nenhuma...O seu amor, o seu ódio e a sua inveja já pereceram" (Ec. 9:5,6). Não há "sabedoria na sepultura" (Ec. 9:10) - não há pensamento e, por isso, não há consciência.
- Jó dizia que na morte, ele seria "como se nunca houvera sido" (Jó 10:18); ele viu a morte como o esquecimento, inconsciência e ausência total de existência que nós temos antes de nascer.
- O homem morre como os animais (Ec. 3:18); se, de alguma forma, o homem sobrevive conscientemente à morte, da mesma forma deveriam eles sobreviver, embora a Escritura e a ciência silenciem sobre isto.
- Deus "se lembra de que somos pó. Quanto ao homem, os seus dias são como a erva, e como a flor do campo, assim floresce;...se vai, e o seu lugar não se conhece mais" (Sl. 103:14-16).
Que a morte é verdadeira inconsciência, mesmo para o justo, está demonstrado pelos pedidos repetidos dos servos de Deus para permitir que suas vidas sejam prolongadas, porque eles sabiam que depois da morte seriam incapazes de louvar e glorificar a Deus, entendendo que a morte era um estado de inconsciência. Ezequias (Is. 38:17-19) e Davi (Sl. 6:4,5; 30:9; 39:13; 115:17) são bons exemplos disto. Repetidas vezes a morte é referida como sono ou descanso, tanto para o justo como para o ímpio (Jó 3:11,13,17; Dn. 12:13).
Existe evidência suficiente para declararmos com franqueza que o ir a um estado de deleite e recompensa no céu, diretamente após a morte, como noção popular de justiça, simplesmente não se encontra na Bíblia. A verdadeira doutrina da morte e da natureza do homem traz um grande senso de paz. Depois de todos os traumas e dores da vida do homem, a sepultura é o lugar de total esquecimento. Para aqueles que não têm conhecimento dos requisitos de Deus, este esquecimento vai durar para sempre. Jamais, novamente, os antigos registros desta vida natural trágica e sem realização; as esperanças fúteis e os temores da mente natural humana serão percebidos, lembrados ou representarão uma ameaça.
No estudo da Bíblia existe um sistema de verdade para ser descoberto; entretanto, tristemente, também existe um sistema de erro no pensamento religioso dos homens, devido à falta de atenção à Bíblia. Os esforços desesperados do homem para aliviar a fatalidade da morte o têm levado a acreditar na "alma imortal". Uma vez que se aceite que tal elemento imortal existe dentro do homem, torna-se necessário pensar que ele deve ir a algum lugar após a morte. Isto faz considerar que na morte deve haver alguma diferença entre o destino do justo e do ímpio. Para acomodar isto, tem se concluido que deve haver um lugar para as "boas almas imortais" irem, o chamado Céu, e um outro lugar para as "almas imortais ruins" irem, o chamado inferno. Nós mostramos anteriormente que uma "alma imortal" é impossível biblicamente. As outras idéias falsas inerentes ao pensamento popular serão analisadas agora:
1. Que a recompensa para as nossas vidas é dada na morte em
forma da designação da nossa "alma imortal" a um certo
lugar.
2. Que a separação entre o justo e o ímpio ocorre na morte.
3. Que a recompensa do justo é ir para o céu.
4. Que, se todos têm uma "alma imortal", então todos devem ir
para o céu ou para o inferno.
5. Que as "almas" dos ímpios irão para um lugar de punição
chamado inferno.
O propósito da nossa análise não é apenas negativo; ao considerar estes pontos em detalhes; cremos que vamos expressar muitos elementos da verdade bíblica que são partes vitais do verdadeiro quadro com respeito à natureza do homem.

VAI HAVER RESSURREIÇÃO?

A Bíblia enfatiza que a recompensa do justo será na ressurreição, na vinda de Cristo (1 Ts. 4:16). A ressurreição dos mortos responsáveis (ver Estudo 4.8) será a primeira coisa que Cristo fará; isto será seguido pelo juízo. Se a "alma" fosse ao céu na morte, não haveria necessidade da ressurreição. Paulo diz que se não há ressurreição, então, todo o esforço para ser obediente a Deus não tem significado (1 Co. 15:32). Com certeza ele não teria pensado assim, se acreditasse que ele também seria recompensado com esta "alma" indo para o céu na morte? A indicação é que ele acreditava que a ressurreição do corpo seria a única forma de recompensa. Cristo nos encorajou com a expectativa de que a recompensa de uma vida fiel agora seria na "ressurreição" (Lucas 14:14).
Mais uma vez deve-se perceber que a Bíblia não ensina qualquer forma de existência à parte da forma corpórea - isto se aplica a Deus, a Cristo, aos Anjos e ao homem. No seu retorno, Cristo "transformará nosso corpo de humilhação, para ser conforme o seu corpo glorioso" (Fl. 3:20,21). Como ele tem, agora, literalmente, uma forma corpórea, puramente energizada pelo espírito em vez de sangue, do mesmo modo vamos nós compartilhar uma recompensa semelhante. No julgamento vamos receber uma recompensa pelo modo como vivemos esta vida na forma corpórea (2 Co. 5:10). Aqueles que viveram uma vida carnal serão deixados com o seu atual corpo mortal, que então vai apodrecer e voltar ao pó; enquanto que aqueles que, nas suas vidas tentaram vencer a mente da carne com aquela do Espírito, " do Espírito ceifarão a vida eterna" (Gl. 6:8) na forma de um corpo preenchido pelo Espírito.
Existe ampla evidência de que a recompensa do justo será na forma corpórea. Uma vez que se aceite isto, deve estar evidente a importância vital da ressurreição. Nosso corpo presente cessa claramente de existir na morte; se nós só pudermos experimentar a vida eterna e a imortalidade na forma corpórea, segue-se que a morte deve ser um estado de inconsciência, até a hora em que nosso corpo é recriado e então recebe a natureza de Deus.
O texto todo de 1 Coríntios 15 fala da ressurreição em detalhes; e sempre irá recompensar uma leitura cuidadosa. 1 Co. 15:35-44 explica que assim como uma semente é semeada e depois emerge do solo para receber um corpo por Deus, da mesma forma os mortos vão se levantar, para serem recompensados por um corpo. Assim como Cristo levantou do túmulo e teve seu corpo mortal transformado em um corpo imortalizado, também o verdadeiro crente vai compartilhar sua recompensa (Fl. 3:21). Através do batismo nos associamos com a morte de Cristo e sua ressurreição, mostrando nossa crença de que nós, também, vamos compartilhar a recompensa que ele recebeu através da sua ressurreição (Rm. 6:3-5). Ao compartilhar agora dos seus sofrimentos, também vamos compartilhar da sua recompensa: "Levando sempre (agora) por toda parte o morrer do Senhor Jesus no nosso corpo, para que a vida de Jesus se manifeste também em nossos corpos" (2 Co. 4:10). "Aquele que dentre os mortos ressuscitou a Cristo Jesus vivificará também os vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que em vós habita" (Rm. 8:11). Com esta esperança, assim nós aguardamos a "redenção do nosso corpo" (Rm. 8:23), através da imortalidade daquele corpo.
Esta esperança de uma literal recompensa corpórea foi entendida pelo povo de Deus desde os primeiros tempos. Foi prometido a Abraão que ele, pessoalmente, herdaria a terra de Canaã para sempre, com tanta certeza como ele a percorreu (Gn. 13:17; ver Estudo 3.4). Para que isto fosse possível, sua fé naquelas promessas precisava da sua crença de que este corpo iria, de algum modo, em uma data futura, reviver e tornar-se imortal.
Jó claramente expressa o seu entendimento de como, apesar do seu corpo ser comido por vermes na sepultura, ele iria, em uma forma corpórea, receber a sua recompensa: "O meu redentor vive, e por fim se levantará sobre a terra. E depois de consumida a minha pele, ("depois que a minha pele for destruida"), ainda em minha carne (ou forma corpórea) verei a Deus. Ve-lo-ei por mim mesmo, com meus próprios olhos, eu, e não outros. Como o meu coração anseia dentro em mim!" (Jó 19:25-27). A esperança de Isaías era idêntica: "Os teus mortos...ressuscitarão" (Is. 26:19).
Palavras muito semelhantes se encontram no registro da morte de Lázaro, um amigo pessoal de Jesus. Em vez de confortar as irmãs do homem dizendo que a sua alma tinha ido ao céu, o Senhor Jesus falou do dia da ressurreição: "Teu irmão ressurgirá". A resposta imediata de Marta, a irmã de Lázaro, mostra como os primeiros cristãos entendiam isto muito bem: "Respondeu Marta: Eu sei que ressurgirá na ressurreição, no último dia" (João 11:23,24). Como Jó, ela não entendia a morte como o portão de entrada a uma vida de glória no céu, mas, em vez disto, esperava uma ressurreição "no último dia" (cf. o "último dia" de Jó). O Senhor promete: "Todo aquele que ouve o Pai, e aprende dele...Eu o ressuscitarei no último dia" (João 6:44,45)

FALA A BÍBLIA DE JULGAMENTO DIVINO?

O ensino bíblico com respeito ao julgamento é um dos princípios da fé, que deve ser claramente compreendido antes do batismo (Atos 24:25; Hb. 6:2). Freqüentemente as Escrituras falam do "dia do julgamento" (por exemplo, 2 Pe. 2:9; 3:7; 1 João 4:17; Judas 6), uma época em que aqueles a quem foi dado o conhecimento de Deus vão receber a sua recompensa. Todos estes devem "comparecer perante o tribunal de Cristo" (Rm. 14:10); nós "devemos comparecer perante o tribunal de Cristo" (2 Co. 5:10) para receber uma recompensa das nossas vidas na forma corpórea.
Com respeito a segunda vinda de Cristo, as visões de Daniel incluiam este assento de julgamento na forma de trono (Dn. 7:9-14). As parábolas ajudam a adicionar alguns detalhes. A dos talentos compara o retorno de um patrão, que chama os seus servos e avalia de que maneira eles usaram o dinheiro que ele os deixou (Mt. 25:14-29). A parábola dos pescadores compara a chamada do evangelho a uma rede de pesca, ajuntando todos os tipos de pessoas; então o homem se assentou (cf. o assento no juízo) e separou os peixes bons dos maus (Mt. 13:47-49). A interpretação é clara: "Virão os anjos e separarão os maus dentre os justos".
Do que nós vimos até aqui, é razoável presumir que depois da volta do Senhor e da ressurreição, haverá um ajuntamento de todos que foram chamados pelo Evangelho a um certo lugar em uma certa hora, quando vão encontrar Cristo. Eles vão ter que prestar contas, e ele vai indicar se eles são ou não aceitáveis para receber a recompensa de entrar no Reino. É apenas neste ponto que os justos receberão sua recompensa. Tudo isto é reunido na parábola das ovelhas e dos bodes: "Quando o Filho do homem vier em sua glória, e todos os santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória (o trono de Davi em Jerusalém, Lucas 1:32,33). Todas as nações se reunirão diante dele (i.e. pessoas de todas as nações, cf. Mt. 28:19), e ele apartará uns dos outros, como um pastor aparta dos bodes as ovelhas. Ele porá as ovelhas à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possui por herança o reino que vos está preparado" (Mt. 25:31-34).
Herdar o Reino de Deus, receber as promessas feitas a Abraão relativas a ele, é a recompensa do justo. No entanto, isto será apenas após o julgamento, que será na volta de Cristo. Assim, é impossível receber a recompensa prometida de um corpo imortalizado antes da volta de Cristo; por isso nós precisamos concluir que, da hora da morte até a ressurreição, o crente não tem nenhuma existência consciente, visto que é impossível existir em uma forma sem ter um corpo.
Um princípio bíblico que se repete é que quando Cristo voltar, então haverá a recompensa - e não antes:-
- "E quando se manifestar o Sumo Pastor (Jesus), recebereis a imarcescível coroa da glória" (1 Pe. 5:4 cf. 1:13).
- "Cristo Jesus...que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino...a coroa da justiça,... a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia" (2 Tm. 4:1,8).
- No retorno do Messias nos últimos dias, "muitos daqueles que dormem no pó da terra (cf. Gn. 3:19) ...ressurgirão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha" (Dn. 12:2).
- Quando Cristo vier em juízo, aqueles "que estão nos sepulcros...sairão; os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que praticaram o mal, para a ressurreição da condenação" (João 5:25-29).
- "Eis que cedo venho (Jesus)! A minha recompensa está comigo, para dar a cada um segundo a sua obra" (Ap. 22:12). Nós não iremos ao céu para obter a recompensa - Cristo a trará dos céus para nós.
Jesus trazendo nossa recompensa com ele, faz supor que ela foi preparada para nós no céu, mas será trazida para nós na terra na segunda vinda; nossa "herança" da terra prometida a Abraão está, neste sentido, "guardada nos céus para vós, que pelo poder de Deus sois guardados mediante a fé, para a salvação preparada para se revelar no último dia" da vinda de Cristo (1 Pedro 1:4,5).
Avaliar isto capacita-nos a interpretar corretamente uma passagem muito mal entendida em João 14:2,3: "Vou (Jesus) preparar-vos lugar. E se eu for e vos preparar lugar (cf. a recompensa "reservada no céu"), virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde estou estejais vós também". Em outro lugar Jesus diz que ele voltará novamente para nos dar nossas recompensas (Ap. 22:12), e nós vimos que estas nos serão dadas no seu trono de juízo. Ele vai reinar no trono de Davi em Jerusalém "para sempre" (Lucas 1:32,33). Ele vai passar a eternidade aqui sobre a terra, e onde ele vai estar - no Reino de Deus sobre a terra - ali nós também estaremos. Sua promessa de "nos receber para si mesmo" pode, assim, ser lida como uma descrição da nossa aceitação por ele no juízo. Em grego a frase "receber para si mesmo" também ocorre em Mt. 1:20 com respeito a José "tomando para si mesmo" a Maria como sua esposa. Assim, ela não se refere, necessariamente, ao movimento físico em direção a Jesus.
Como a recompensa será apenas dada no juízo na volta de Cristo, segue-se que o justo e o ímpio vão para o mesmo lugar quando morrem, i.e. a sepultura. Não há diferenciação entre eles nas suas mortes. O seguinte é prova positiva disto:-
- Jônatas era justo, mas Saul era ímpio, entretanto "na sua morte não se
separaram" (2 Sm. 1:23).
- Saul, Jônatas e Samuel todos foram ao mesmo lugar na morte (1 Sm.
28:19).
- O justo Abraão foi "reunido ao seu povo" , ou ancestrais, na
morte; e eles eram idólatras (Gn. 25:8; Js. 24:2).
- O espiritualmente sábio e o tolo experimentam a mesma morte (Ec.
2:15,16).
Tudo isto está em forte contraste com as declarações do "cristianismo" popular. O seu ensino de que o justo vai imediatamente para o céu ao morrer destrói a necessidade de uma ressurreição e juízo. Entretanto, nós vimos que estes são eventos vitais no plano de salvação de Deus, e por isso estão na mensagem do Evangelho. A idéia popular sugere que uma pessoa justa morre e é recompensada por ir ao céu, sendo seguida por outros no dia seguinte, no mês seguinte, no ano seguinte. Isto contrasta acentuadamente com o ensino bíblico de que todos os justos serão recompensados juntos, na mesma hora:-
- No juízo as ovelhas estão separadas dos bodes, uma a uma.
Assim que termine o julgamento, Cristo dirá a todas as ovelhas
reunidas à sua mão direita:
"Vinde, benditos de meu Pai, possui por herança o Reino que vos está preparado" (Mt. 25:34). Assim, todas as ovelhas herdam o Reino ao mesmo tempo (cf. 1 Co. 15:52).
- Na "colheita" do retorno e julgamento de Cristo, todos aqueles que labutaram no Evangelho irão "alegrar-se juntos" (João 4:35,36 cf. Mt. 13:39).
- Ap. 11:18 define "o tempo de serem julgados os mortos" como o tempo quando Deus irá "dar recompensa...aos santos...que temem teu nome" - i.e. todos os crentes reunidos.
- Hebreus 11 é um capítulo que relaciona muitos dos homens justos do Velho Testamento. O verso 13 comenta: "Todos estes morreram na fé. Não alcançaram as promessas" feitas a Abraão sobre a salvação quanto a entrar no Reino de Deus (Hb. 11:8-12). Segue-se que na sua morte, aqueles homens não foram, um a um, para o céu receber a recompensa. A razão disto está dada nos versos 39,40: Eles "não receberam a promessa. Deus havia provido coisa superior a nosso respeito, para que eles, sem nós, não fossem aperfeiçoados". A demora em dar-lhes a recompensa prometida foi porque era plano de Deus que todos os fiéis "fossem aperfeiçoados" juntos, no mesmo momento. Isto será no juízo, no retorno de Cristo.