03/12/10

É O PAPA BENTO XVI O "SÉTIMO REI?"

Com o lançamento do filme "2012", o interesse das pessoas no fim do mundo se intensifica. E diz-se por aí que a morte de João Paulo II e a eleição de Bento XVI foi predita na Bíblia como sinal do fim. Mas será que é verdade?
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Apocalipse 17:7-11 é uma das passagens mais difíceis de toda a Bíblia. Muitas interpretações drasticamente divergentes têm sido propostas para esta passagem, não só por Adventistas mas por outras denominações também. Este artigo propõe uma das interpretações mais aceitas na IASD actualmente e suas implicações para a interpretação de que os sete reis representam sete papas recentes, o que faria de Bento 16 o "sétimo rei" (v. 10). O artigo também expõe alguns problemas com outras interpretações historicistas adventistas actuais. Aqui vai a passagem na versão Almeida Actualizada:

"7Ao que o anjo me disse: Por que te admiraste? Eu te direi o mistério da mulher, e da besta que a leva, a qual tem sete cabeças e dez chifres. 8A besta que viste era e já não é; todavia está para subir do abismo, e vai-se para a perdição; e os que habitam sobre a terra e cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo se admirarão, quando virem a besta que era e já não é, e que tornará a vir. 9Aqui está a mente que tem sabedoria. As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada; 10são também sete reis: cinco já caíram; um existe; e o outro ainda não é vindo; e quando vier, deve permanecer pouco tempo. 11A besta que era e já não é, é também o oitavo rei, e é dos sete, e vai-se para a perdição."

A pergunta crucial para o entendimento correcto da passagem é: A que tempo o anjo se refere ao dizer das cabeças da besta no verso 10 que "cinco já caíram, um é, outro ainda não é vindo"?

Essa pergunta pode ser respondida por dois princípios interpretativos[1] que regem a interpretação de profecias tanto do Antigo quanto do Novo Testamento:

1. A profecia é relevante ao tempo do profeta. Em outras palavras, a profecia não é simplesmente para saciar a curiosidade do profeta sobre um futuro distante, mas sim para revelar a acção constante de Deus na história do Seu povo, inclusive no momento em que o profeta vive, no seu contexto e circunstâncias imediatas. Embora as profecias transcendam muitas vezes esse contexto, elas se fundamentam no tempo do profeta, usam elementos com os quais ele está familiarizado e se entendem a partir desse tempo e contexto. Exemplos disso são o ídolo de Nabucodonosor em Daniel 2 e os gafanhotos, os selos, as trombetas e as taças do Apocalipse. Deus não mostrou a Daniel e João e outros profetas elementos desconhecidos como bombas nucleares, aviões, helicópteros, computadores, internet, automóveis, etc.

Ellen White articula esse ponto dizendo que "[Deus] vai ao encontro dos caídos seres humanos onde eles se acham. Perfeita como é, em toda a sua simplicidade, a Bíblia não corresponde às grandes ideias de Deus; pois ideias infinitas não se podem corporificar perfeitamente em finitos veículos de pensamento." (ME 1: 22). O Dr. Jon Paulien, actual reitor da Universidade Adventista de Teologia de Loma Linda e autoridade em Novo Testamento e profecia concorda que "A abordagem adventista crê que Deus coloca nas visões apocalípticas informações precisas sobre o futuro distante, mas este futuro é descrito na linguagem do tempo e lugar do profeta."[2]

2. Deve haver distinção entre o tempo da visão e o tempo da interpretação da visão. Na visão propriamente dita, o profeta viaja a tempos e lugares diferentes (tempo transcendente; cf. Apo. 17:3). A explicação da visão, por sua vez, deve ser para benefício do profeta e tem como ponto de referência o tempo do profeta (tempo local). Na explicação da visão, passado, presente e futuro não se referem ao tempo que passa na visão e sim ao momento histórico do profeta para que haja referencial. E os elementos e símbolos da visão também, embora seu significado transponha a barreira de tempo, estão baseados no tempo do profeta. Usando ainda a estátua de Nabucodonosor como exemplo, ela tinha implicações para o tempo do fim mas está firmada no tempo do rei: na visão, Deus revelou um ídolo que era comum ao rei. Deus poderia ter usado outros símbolos mas usou algo que Nabucodonosor entenderia imediatamente. A estátua que ele mandou construir e adorar reflectia o entendimento da visão que ele tivera para o seu tempo. Já para Daniel, a mesma visão foi dada usando a temática da Criação.[3]

Aplicando agora esses dois princípios a Apocalipse 17:7-11, podemos criar o seguinte cenário:

Cena 1: Discurso angélico: Anúncio do início da visão (tempo local): "Vem, mostrar-te-ei..." (v. 1-2)

Cena 2: Visão propriamente dita (tempo transcendente): "Então me levou em espírito a um deserto ..." (3-6)

Cena 3: Fim da visão (tempo local): "Ao que o anjo me disse: Por que te admiraste?" (7a)

Cena 4: Discurso angélico: Explicação da Visão (tempo local): "Eu te direi o mistério da mulher e da besta" (7b)

Note que a explicação não inclui outra visão, como se João fosse transportado novamente a outro período da história durante a explicação. A explicação é baseada na visão da besta e da meretriz ("a besta que viste") e baseia-se no tempo local de João. O texto não permite concluir que João foi levado a um tempo futuro durante a explicação, supostamente o tempo do cumprimento da visão.

Esta distinção é importante, pois segundo o Dr. Ekkehardt Müller do Biblical Research Institute da Conferência Geral: "Durante a visão o profeta se move livremente em tempo e lugar . ... A interpretação da visão, no entanto, tem que se relacionar com o tempo e o lugar do profeta para que faça sentido e para que saibam em que tempo localizar os eventos preditos."[4] Paulien adiciona que "Se queremos entender o que Deus está dizendo a João sobre o futuro, precisamos primeiramente entender o que João entendeu. "[5]

Note também que o anjo explicou para que João pudesse entender a visão e não continuasse "maravilhado" que no original grego é "admiração com medo, estarrecimento" (cf. Daniel 8:27).[6] Lembre-se também que Jesus profere uma bênção sobre aqueles que "ouvem e guardam as palavras desta profecia" (Apo. 1:3). No original esse ouvir (akou¬o) é "ouvir com entendimento", o que pressupõe que o autor e os leitores entenderam a mensagem do Apocalipse como relevante aos seus dias e não exclusivamente a um futuro distante.

A opinião de que "um é" se refere ao tempo de João tem apoio de estudiosos adventistas e eruditos evangélicos. O primeiro a propô-la foi Urias Smith [7] e mais recentemente ela teve o apoio dos Dr. Kenneth Strand[8], Dr. Jon Paulien [9], Dr. Ranko Stefanovic [10]e Dr. Ekkehardt Müller.

Portanto, há fortes evidências que a explicação da visão de Apocalipse 17 deve se fundamentar no tempo de João. Sendo assim, os "cinco" (v.10) já haviam passado no tempo de João e o sexto estava presente no tempo dele (c. 95 A.D); o sétimo estava por vir no futuro, ficaria "pouco tempo" e o oitavo seria da mesma natureza dos outros ("é dos sete") e iria "para a destruição" ou seja, surgiria imediatamente antes do juízo. A idéia aqui é sequência histórica. Considerando então que "reis" e "montes" (v. 9, 10) em profecia representam reinos e impérios (Daniel 2; Jeremias 51), e não indivíduos (Papas),[11] essas cinco cabeças da besta ou reis significariam cinco impérios opressores do povo de Deus que já haviam passado ou "caído" no tempo de João.

A seguinte lista dos impérios que "caíram" tem apoio de vários eruditos adventistas:[12] Egipto, Assíria, Babilónia, Pérsia e Grécia.[13] O fato de que os "montes" são "reis" consecutivos ("caíram, é, virá"), ou seja, em sequência histórica, descarta a interpretação de que esses "montes" se referem aos sete montes literais de Roma, pois montes não tem sentido de sequência ou sucessão histórica. A linguagem aqui é claramente simbólica.

O Dr. Paulien conclui sobre as cabeças de Apocalipse 17 que "... há evidências no livro do Apocalipse de que as três bestas podem representar a sexta cabeça (Apocalipse 12 - Roma pagã do tempo de João), a sétima cabeça (Apocalipse 13 - Roma Papal que sucedeu a pagã) e a oitava cabeça (a besta de Apocalipse 17 - a unidade política mundial.)"[14] Ele propõe que "o dragão do capítulo 12, a besta do mar do capítulo 13 e a besta escarlata do capítulo 17 são três diferentes estágios da mesma besta"[15] o que é pode ser visto nas características compartilhadas pelas três bestas. Portanto, com base no que vimos até agora, poderíamos criar a seguinte linha de tempo de Apocalipse 17:7-11:

A sugestão acima é compatível com os princípios de interpretação de visões proféticas delineados anteriormente e apresenta a leitura mais natural do texto, principalmente no que tange a distinguir entre o referencial de tempo que ocorre na visão (tempo transcendente) com o referencial de tempo da explicação (tempo local). Note também que essa interpretação em nada desmerece a parte que o Papado terá nos eventos finais; segundo o entendimento adventista, a sua actuação está claramente estabelecida na em Apocalipse 13 e 18.

Essa interpretação também enfraquece outras interpretações adventistas historicistas actuais que, embora não considerem os Papas como reis, ignoram a importante distinção entre visão e acabam propondo que João foi levado a outro tempo durante a explicação (o que não tem base no texto) considerando assim que os "cinco caíram" no momento da ferida mortal (1798 A.D.).[17] Outras mostram inconsistência ao interpretar "um é" no tempo de João (Roma Pagã) enquanto transpõem a besta que "não é" a um tempo futuro (Papado ferido).

Finalmente, apesar de a interpretação proposta aqui ser a mais plausível, Apocalipse 17 provavelmente continuará sendo um texto "difícil" para estudantes das profecias.

Conclusão: Os "cinco caíram, um é e outro ainda não é vindo" de Apocalipse 17:10-11 são melhor entendidos na perspectiva do tempo de João no primeiro século A.D. Essa interpretação descarta por completo a hipótese de que os seis reis são Papas do século XX e que o sétimo seja Bento XVI.[18] Ela também questiona a opinião de que João foi transportado a outro tempo durante a explicação removendo assim o referencial de tempo dos vários períodos delineados pelo anjo.

Certamente todos ansiamos pelo retorno de Jesus. Porém, tentar decifrar "tempos ou épocas" (Actos 1:6-7) através de especulações e sensacionalismo por uma leitura distorcida dos eventos actuais leva a falsas esperanças e desvia a atenção dos verdadeiros sinais do fim. Acima de tudo, nossa confiança na Segunda Vinda deve estar firmemente baseada na promessa de Jesus:

"Eis que cedo venho; bem-aventurado aquele que guarda as palavras da profecia deste livro. Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar. E, se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos tomarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também." (Apo. 22; João 14:1-3)

"Por isso, confortai-vos uns aos outros com essas palavras." (1 Tess. 5:11).

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E a Besta de Apocalipse 17?

A interpretação dos oito reis de Apo. 17 na perspectiva do tempo de João nos leva a perguntar: Como então entender as fases da besta de Apocalipse 17:8 que 'era, não é e subirá do abismo (tornará a vir)' usando o mesmo critério?

Aqui vai o verso completo:
"A besta que viste era e já não é; todavia está para subir do abismo, e vai-se para a perdição; e os que habitam sobre a terra e cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo se admirarão, quando virem a besta que era e já não é, e que tornará a vir."

Lembra-se do que o Dr. Jon Paulien falou acima que "o dragão do capítulo 12, a besta do mar do capítulo 13 e a besta escarlata do capítulo 17 são três diferentes estágios da mesma besta"? Então note como o texto traz um paralelo entre a besta que "era, não é, e que tornará a vir" (Apo. 17:10) e Deus "que era, que é, e que há de vir" (Apo. 1:4). Isso parece indicar que a besta do capítulo 17 representa aspectos da trajectória do próprio Satanás, o dragão do capítulo 12 e que desde o início quis ser igual a Deus (Isa. 14:12). Embora ele sobreviva através dos reis ("um é, outro virá, o oitavo é a besta"), seu reino está tecnicamente derrotado a partir da cruz em 31A.D. (Apo. 12:12, Luc. 10:18). Algumas evidências textuais parecem favorecer esta interpretação:

"Vi uma mulher montada numa besta cor de escarlata". Essa é a mesma cor do dragão de Apo 12:3 que é um dos símbolos de Satanás: "um grande dragão vermelho".

"Subirá do abismo". A besta está no abismo que é símbolo da morada de demónios cujo rei é o anjo Abadom ou Apoliom, que simboliza Satanás (Apo. 9:2-11, cf. Mat. 12:24). Veja também Apo. 20:1; Isa. 24:21; Lucas 8:31; 2 Ped. 2:4; Jud. 6. A besta sobe do abismo para travar a última batalha contra Deus, com a ajuda dos dez reis e da meretriz.

"Vai-se para a perdição". A destruição do poder e influência de Satanás sobre a humanidade na Segunda Vinda (Apo. 20:1-3) que culmina com sua destruição definitiva no fim do milênio (Apo. 20:10).

Assim, levando em conta a perspectiva do tempo de João, é possível construir a seguinte sequência histórica da besta do abismo de Apocalipse 17 como sendo um símbolo do próprio Satanás: (O diagrama abaixo é uma sugestão baseada em parte nos estudos do Dr. Jon Paulien, Seminário Adventista de Loma Linda e Dr. Ekkehardt Müller do Biblical Research Institute):


A BESTA DE APO. 17
ÉDEN - CRUZ (31A.D.) 31A.D. --- c. 95A.D. RESSURGIMENTO FINAL
"era" "não é"
(está no abismo) "todavia está para subir do abismo e vai-se para a perdição"
Reinado Satânico do
Éden até a Cruz Tempo de João e além
Satanás Derrotado desde 31A.D.

(Apo. 12:12; cf. Lucas 10:18;
Ellen White: "Quando Cristo abaixou sua cabeça e morreu, ele derrubou os pilares do reino de Satanás consigo ao chão." YI, 25/04/1901).
Batalha Satânica imediatamante antes da Segunda Vinda que culmina com o aprisionamento de Satanás durante o Milênio e sua posterior destruição no lago de fogo
Autor: José Reis
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[1] Veja Jon Paulien, Revelation 17 and the Papacy (Berrien Springs: Endtime Issues; 2002), 30.
[2] Ibid., 32.
[3] Ibid., 31.
[4] Ekkehardt Müller, Revelation 17: A Suggestion. (Monografia não publicada divulgada pela Adventist Theological Society), 8.
[5] Paulien, 32.
[6] Paulien sugere que o estarrecimento de João se deve ao fato de que na visão de Apo. 12 ele havia visto a mulher no deserto (Igreja pura) sendo atacada pelo dragão mas em Apocalipse 17 uma mulher (meretriz) está intimamente relacionada à besta. João pode ter entendido que a mulher pura e fiel estava agora "prostituída".
[7] Urias Smith, Daniel and the Revelation, Edição revisada (Nashville: Southern Publishing Association, 1944), 711.
[8] Kenneth A. Strand, “The Seven Heads: Do They Represent Roman Emperors?” em Symposium on Revelation— Book II, editado por Frank B. Holbrook, Daniel and Revelation Committee Series, vol. 7 (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 1992), 191.
[9] Paulien, 37.
[10] Veja Ranko Stefanovic, Revelation of Jesus Christ. (Berrien Springs: Andrews University Press: 2002), 512.
[11] Poderia também se argumentar que o Vaticano é um império cujo rei é o Papa mas a linha de tempo no século XX não coincide com "cinco já caíram" no tempo de João.
[12] Stefanovic, 512; Paulien 23, 37.
[13] Algumas interpretações rejeitam esta lista porque o Egito e Assíria não estão entre os reinos de Daniel 7 e não poderiam estar no Apocalipse. No entanto, há fortes alusões à experiência de Israel no Egito nas sete pragas em Apo. 16 que coincidem com as sete trombetas de Apo. 8-11. Segundo Jon Paulien, há também uma alusão clara à Assíria em Apo. 8:7 baseada em Isa. 10:16-19. Além disso, o Apocalipse não se limita ao que Daniel revelou necessariamente mas desenvolve seus temas de maneira mais ampla. Ellen White diz que: "No Apocalipse todos os livros da Bíblia se encontram e se cumprem. Ali está o complemento do livro de Daniel. " (AA, 585).
[14] Paulien, 34.
[15] Ibid., 27.
[16] Veja Müller, 38.
[17] A besta e a meretriz devem ser mantidas como entidades distintas; a besta representa a ação Satânica através de poderes políticos e a meretriz, poderes religiosos apostatados; veja que em Apo. 17:16, a besta e os dez chifres se voltam contra a meretriz e a destroem. Veja o Apêndice sobre a besta do abismo.
[18] Uma interpretação ainda mais radical dos reis como Papas é a de que o oitavo rei seria a reencarnação de João Paulo II.